>Nem ditadura, nem anarquia

>A autoridade do professor vem do domínio que ele tem dos conteúdos e da capacidade de respeitar o aluno como ele quer ser respeitado

Por Manuela Biz

Revista Nova Escola – 09/2007


Como fazer com que os alunos prestem atenção durante a explicação dos conteúdos? De que forma não ser vítima de agressões por parte dos jovens? É possível ter o respeito deles sem ser autoritário?

Perguntas como essas, feitas diariamente por todos os que enfrentam turmas entre 30 e 40 estudantes, podem ser resumidas numa só: como ter autoridade? O medo de ser ridicularizado ou afrontado muitas vezes leva a ações ou reações que só fazem as relações ficarem mais tensas. É quando, querendo ter domínio da situação, se parte para a voz alterada ou para ameaças com notas baixas e suspensão.

Maria Cecília Arantes Nogueira, depois de pesquisas para seu doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirma que os educadores têm problemas para distinguir autoridade de autoritarismo. Palavras parecidas, mas com significados diferentes: a primeira é o exercício da liderança pelo respeito e pela admiração, a segunda, pela imposição e pela coerção.


DOMÍNIO DO SABER

Autoridade nada tem a ver com voz alta ou chantagem. Muitos professores atribuem a deterioração da relação em sala de aula ao fim da reprovação em algumas redes de ensino. As notas teriam o papel, nesse caso, de moeda de troca.

Contudo, a progressão continuada não é a origem do problema. Segundo Mario Sergio Cortella, professor de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a autoridade do docente fica evidente quando ele assume o papel de gestor do processo pedagógico: “O que estabelece a hierarquia na sala de aula é o domínio dos conteúdos”.


Portanto, conhecer a fundo a área, ter estratégias que estimulem a curiosidade dos alunos e saber como ensinar é fundamental para que os jovens reconheçam sua competência e o respeitem (de verdade) por isso.

Aida Kuri Souza Jansen dá aulas de Língua Portuguesa para jovens a partir de 12 anos na EEB Natálio Wassoler, em Forquilinha, a 199 quilômetros de Florianópolis, e procura estar por dentro das novas metodologias. Em média, faz cinco cursos por ano. Num deles, aprendeu novas maneiras de avaliar leitura.

Em vez das tradicionais provas, a turma tem um desafio: solucionar uma situação-problema cujas pistas estão no livro. “A garotada se envolve com a proposta e não preciso ameaçar com notas para que todos façam os deveres”.

RESPEITO MÚTUO

Ter consideração pelo professor capaz de ensinar evita situações de disputa de poder, mas não é a única fonte de reverência. Yves de La Taille, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo, ressalta em seu livro Limites: Três Dimensões Educacionais que o jovem precisa de bons modelos de conduta para seguir: quem está acostumado a ver agressividade no trato com o outro ou é alvo de atos ou palavras hostis certamente reproduzirá essas mesmas atitudes, simplesmente por faltar repertório que permita comparar diferentes modos de agir.

Por isso, é preciso que a escola tenha regras de boa conduta que valham para todos, inclusive os professores. Algumas são discutidas, outras independem da vontade das partes. No primeiro grupo, podem estar as relativas a atos que atrapalhem a aprendizagem ou comprometam a integridade física ou emocional (como os xingamentos).

Flaviana Rodrigues Bezerra, professora da 5ª série da EM Nossa Senhora dos Navegantes, em Natal, levou um susto em seu primeiro dia de aula na escola ao observar que as crianças não tinham nenhum tipo de regulamentação quanto ao comportamento em classe. Sua primeira atitude foi criar o Estatuto da Sala de Aula.

Alguns itens foram logo listados por ela: é proibido subir nas cadeiras e nas mesas, ninguém pode gritar e correr na classe nem jogar merenda nos colegas. Mesmo os pontos inegociáveis precisam de esclarecimento para que todos entendam por que obedecê-los.

Outros artigos foram sugeridos, discutidos e votados, como “não jogar lixo no chão” e “não ter preguiça de aprender”. A “constituição” de 25 tópicos foi fixada na parede e uma leitura de vez em quando lembra todos sobre os direitos e deveres de cada um.

“É importante escutar o aluno durante o processo de elaboração das regras, pois a democracia é sempre uma construção coletiva”, destaca Cortella.
Na EE Francisco Cristiano Lima de Freitas, em São Bernardo do Campo, município da Grande São Paulo, a diretora Sônia Maria Vieira dos Santos estabeleceu fóruns de discussão ao assumir o cargo, em 2002, quando os professores levaram a ela casos de briga com os alunos.

Agora, tudo isso é discutido nos conselhos de classe. Educadores e estudantes dão sugestões sobre o andamento das aulas e o que pode ser melhorado, como problemas de comportamento e diretrizes da escola.

NÃO É NADA PESSOAL

Mesmo com o estabelecimento de regras, os indivíduos podem tomar decisões contrárias ao estabelecido. E nem sempre os interesses coincidem. O professor quer que o aluno preste atenção, mas ele prefere ler gibi. “Existem várias maneiras de enfrentar a autoridade, mas o objetivo do jovem que se opõe ao professor é testar os limites e a rigidez das normas”, adverte César Ades, do Departamento de Psicologia da USP.

As relações dentro da classe não são pessoais e devem ser pautadas pelas regras estabelecidas pelo grupo. “O professor não pode punir um aluno por não simpatizar com ele.” Por isso, o ideal é que as normas de convivência prevejam, inclusive, como agir quando uma é quebrada.

Em que casos falar individualmente? Quando levar o problema para o grupo? E o diretor, deve ser chamado para intermediar? “Quando o professor tem autoridade, a tendência é solucionar tudo na sala de aula. Só é aconselhável recorrer à direção em casos graves, como agressões físicas e xingamentos”, ressalta Izamara Silva, gerente pedagógica do Instituto Social Maria Telles, no Rio de Janeiro.

ESTIMULAR TALENTOS

Yves de La Taille escreveu que o educador também adquire autoridade quando a criança percebe o interesse em seu desenvolvimento, incentivando-a a aprimorar seus talentos e habilidades.

A diretora Sônia, de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, ficou sabendo que alguns alunos estavam produzindo vídeos simulando agressões físicas e uso de drogas na escola para colocar na internet. O que seria caso de indisciplina virou uma oportunidade.

Depois de várias reuniões, inclusive com os pais, foi encontrada uma solução: “Pedimos que eles mudassem a temática para representar a escola num concurso de vídeos ambientais da prefeitura”, conta ela.

QUER SABER +?

Bibliografia

Nos Labirintos da Moral, Mario Sergio Cortella e Yves de la Taille, Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500.
Limites: Três Dimensões Educacionais, Yves de La Taille, Ed. Ática, tel. (11) 3346-3000.
Violência na Escola: um Guia para Pais e Professores, Caren Ruotti, Renato Alves e Viviane De Oliveira Cubas, Ed. Imprensa Oficial, tel. (11) 5013-5108.

Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/conteudo_251119.shtml

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