>Escola nossa de cada dia reinventada

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Muito se fala sobre escola, de fora, de longe, desconhecendo o que acontece a cada dia, dentro da escola, onde interagem os profissionais que nela atuam, alunos e alunas, pais, mães e comunidade. A escola de que falam é uma simplificação a partir de um paradigma reducionista que ignora a complexidade do que se passa e se cria nesse espaço/tempo de aprender e ensinar, de construção de múltiplas subjetividades, de encontros e desencontros, de socialização.

Cada professora ou professor, criança, pai ou mãe, em seus tantos cotidianos vividos, participa de redes, comuns algumas, diferentes outras, em que influem e são influídos num processo de trocas com outras pessoas, em que se modificam, seres mutantes que são, como, aliás, todos somos. Pessoas, a um tempo, comuns e únicas, pela história de vida diferente de qualquer outra vida. E porque são únicos, investigamos o que os faz diferentes, fugindo das generalizações de a professora, o aluno, a escola. Procuramos mergulhar na complexidade da escola, onde se produzem políticas educativas através do currículo construído no cotidiano, inspirado por utopias educativas e sociais, histórica e coletivamente tecidas por quem luta por mudar o mundo.

Não é nos gabinetes ministeriais, portanto de fora, que as políticas se dão, por mais que possa incomodar a quem pensa ter em mãos o destino da educação no país.

Quem tem experiência em escola sabe do que falamos. Novas administrações, no desejo de marcar a sua passagem, atropelam experiências interessantes em curso em escolas. Felizmente, o que vem de cima, na sala de aula se transforma em outra coisa, pois este é o espaço/tempo de invenção, surpresa, complexidade, tenhamos ou não olhos para ver, ouvidos para escutar, nariz para cheirar, paladar para degustar, tato para tocar.

Na sala de aula a teoria se atualiza, confirmada ou negada, na busca de soluções para o que enfrentam sujeitos empenhados em ensinar e aprender. Nenhuma teoria dá conta da totalidade de tão complexo processo. Explica alguma coisa mas não explica outras, exatamente porque cada sujeito e cada situação são únicos, diferentes do já conhecido e teorizado. Daí porque tanta pesquisa e tantas explicações são produzidas e tantas novas explicações derrubam a explicação anterior aceite como verdade.

Muito nos incomoda, em nossos anos de professoras e pesquisadoras, a boa desculpa de alguns formuladores de novas políticas públicas em educação para justificar seu próprio fracasso, inevitável em políticas impostas. A boa desculpa é culpar as professoras pelo fracasso, donde resultam altos investimentos em capacitação de professoras.

Discordando de que os sujeitos que atuam na escola são incompetentes ou que a solução para a crise da escola sejam “novos projetos”, defendemos só se contribuir para a transformação na escola, reconhecendo-a como um espaço/tempo de permanente transformação, em que sujeitos mutantes e complexos vivem complexos processos que, para serem compreendidos, exigem pesquisa e, sobretudo, humildade para romper com a onipotência que nos formou.

Dedicamo-nos a investigar os processos de criação pedagógica, no próprio processo de fazer, considerando as histórias faladas e escritas por seus diferentes sujeitos, que criam e recriam a escola – artes de fazer, modos de fazer diferentes e com lógicas próprias, que tanto confundem as nossas, produzindo leituras diferentes das que fazemos em nossas tentativas de explicar o cotidiano escolar.

Nesta investigação cúmplice, para além do consumo do vendido pelos que dominam o mundo e a todos reduzem a meros consumidores, tentamos compreender o uso que fazem homens e mulheres, da mercadoria – de idéias e conhecimentos a eletrodomésticos e automóveis, de mudanças curriculares a novas tecnologias pedagógicas. Não nos interessam as estratégias construídas pelos poderosos, que podem ver do alto por terem o domínio do lugar que estabelecem para si mesmos, mas como, quem vive o cotidiano, cria táticas para a ocupação do próprio alheio no espaço/tempo apropriado pelos poderosos. Estas táticas, menos luminosas do que as tão iluminadas produções das estratégias e menos barulhentas por não disporem dos amplificadores da media, são pouco vistas e ouvidas por nossos olhos e ouvidos treinados pelas estratégias, que precisam mudar para melhor sentir o que é e como é fabricado, a partir da própria lógica da fabricação, apesar de sabermos de nossos tantos limites, devidos à nossa própria ambivalência historicamente construída. Estamos sempre no entre-lugar, o lugar de onde viemos e o lugar no qual escolhemos estar.

Não aprendemos a reconhecer as dobras e menos ainda a desdobrá-las, descobrindo o encoberto. Este emaranhado dificulta romper com o ensinado/aprendido e precisa ser “desemaranhado” para, com a riqueza da complexidade revelar o conhecimento praticado, tecido nos múltiplos, inesperados e não lineares contatos cotidianos, resultantes das astúcias dos que vivem a escola e se insurgem contra os projetos lineares e contra os poderosos que os tentam impor. Esta é uma história muda para ouvidos surdos aos seus modos de dizer. Para ouvi-la será preciso recuperar a memória coletiva a que não temos dado a devida atenção e da qual tanta riqueza já se perdeu, ao se terem perdido valiosos registros.

Muitos/as têm se dedicado a estudar o processo de imposição de idéias, de projetos e de mudanças pelos poderosos. Reconhecendo o valor destas pesquisas, estamos empenhadas em outro aspecto da mesma situação de exercício do poder. Queremos mostrar como, no cotidiano escolar em que as políticas públicas são implantadas, inúmeras alternativas vão sendo “fabricadas” por quem o vive e sofre, criando o novo nos espaços/tempos por outros afirmados sempre iguais. Tivessem lido von Foerster, Bateson ou Maturana, saberiam que só se vê aquilo que se crê…

A proposta vencedora quer esconder mas paradoxalmente revela a existência de propostas alternativas vencidas que, embora pareçam desaparecidas, lá estão, acumulando forças, portadoras de incrível capacidade de renovação, e surpreendendo, dadas as condições materiais, espirituais e morais que enfrentam. São a reserva moral da necessária crença no que é possível fazer e alimentam nossas utopias.

Como? Porquê? Quais? Onde? Por quem?

Perguntas que nos fazem indagar se é possÌvel ir mais longe com os processos criados e mantidos pelos dispositivos e procedimentos hegemónicos que, para se tornarem hegemónicos, elaboraram uma análise global da sociedade a partir de sua própria lógica carregada de seus interesses particulares e tornada hegemónica no mesmo processo de construção de hegemonia. Mas o mesmo processo que levou à construção da hegemonia das forças políticas hoje dominantes, as fez perder a capacidade de aceitar a existência de outras lógicas no mesmo espaço/tempo, pois para deste se apropriar, precisaram fazer crer se tratar de propriedade sua por conquista e direito. Explicando o espaço/tempo com sua lógica, limitam a sua leitura ao uso de seu próprio “alfabeto”, confirmando que quem define as regras do jogo anuncia o vencedor. Assim vão se tornando ilegíveis e mesmo invisíveis quaisquer outros procedimentos. Mas o invisível vê e ameaça quem o tornou invisível. E, o que é mais animador, torna-se elemento de potencial transformação.

Daí propormos reeducar nossa capacidade de ver, ouvir, sentir as ideias e ações produzidas no espaço/tempo do cotidiano da escola e da sala de aula, com suas lógicas e ritmo próprios. Não se trata de projetos e propostas pedagógicas e curriculares articuladas e gerais, portanto de estratégias, às quais, de acordo com a visão dos sujeitos do poder, os outros, os sujeitos do cotidiano escolar, deveriam se adaptar. Trata-se, isto sim, de modos de fazer cotidianos, artes outras que a racionalidade dominante, carregadas de emoções, intuições, imaginaço criadora e de outra racionalidade, que combinam possibilidades geradoras de inúmeras alternativas capazes de desenvolver trajetórias impossíveis de pré determinar, porque caóticas, e, por conseqüência, auto-poéticas, imprevisíveis, diferentes a cada momento, só se deixando ver por quem aprendeu a ver para além do instituído. Artes que portam uma arte de pensar, implicando, ao contrário do que nos ensinaram, na unidade práticateoriaprática, assim mesmo como escrevemos, inseparáveis.

Quando práticateoriaprática são religadas como sempre estiveram no viver cotidiano, não mais se pode isolar o sujeito do objeto, ou dicotomizar o mundo, ou encontrar salvação no futuro, no isolamento das grades ou dos laboratórios, ou no olhar estratégico, perspectiva herdada da modernidade. O outro passa a ser reconhecido no espaço/tempo do cotidiano, no aqui e agora, dentro e fora, no entre lugar em que estamos, resultado de um contínuo processo de hibridização.

Esta a crise que vive a escola, para além da escola, pois é a crise da sociedade onde está a escola. A nós, de pensá-la e interferir nas questies da educação, da qual somos os profissionais reconhecidos e dos quais é esperado termos o que dizer e fazer. Este pensar e recriar a escola não pode ser imposto de cima e de fora. Ele se dá, quando se dá, em seu cotidiano, nas ações dos sujeitos que nela interagem em sua busca de atualização da promessa de mudar a vida trazida desde a revolução francesa, promessa jamais cumprida para os deserdados da terra, que vão sendo abandonados na África e na América Latina pelas “elites dirigentes” destes continentes, “ajudadas” pelo FMI e pelo Banco Mundial, em sua forma perversa de dirigir o mundo.

Para nós que fomos educadas por um paradigma que falava de certezas, de verdade absoluta, de progresso permanente, de caminhos dos quais se podia visualizar o ponto de chegada, de dirigentes portadores do mapa do destino determinado, a crise seria inevitável ao descobrirmos que tanto do prometido jamais se realizou e possivelmente não se realizará. O caminho que nos diziam levar à terra prometida onde todos teriam direito à felicidade, se revelou o caminho da injustiça, da fome, da doença, da guerra e da morte.

Nossa esperança reside na possibilidade de emergência de uma nova organização a partir do caos. Nossa luta é para que do caos possamos construir uma nova forma de vida neste planeta em que alguns vivem e outros apenas sobrevivem, vida que seja pautada pelo profundo sentimento de compaixão, que supera o sentimento individual dirigido a um outro apenas e se abre para o mais amplo sentimento de paixão pela humanidade.

Nilda Alves
Professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Regina Leite Garcia
Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense.

Fonte: A Página da Educação

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