Imagens e práticas pedagógicas no cotidiano das escolas: o celular nas classes de alfabetização


Solange Castellano Fernandes Monteiro
Tereza Cristina C. Correa Teixeira

Temos percebido que os aparelhos celulares com seus múltiplos sons em diferentes espaços da vida cotidiana escolar. Esses aparelhos parecem desejar que todos estejam atentos ao que um novo sistema de trocas de sons-mensagens-imagens apresenta. Desse modo, não importando se o seu valor, tem o significado subjetivo de se fazer comunicar.

Assim como outros meios de comunicação, ele também “impõe” um modo cultural nas escolas e fora delas supostamente unificado pelas normas das novas tecnologias do mundo contemporâneo, desconhecendo, muitas das vezes, o que se passa no espaço-tempo da vida.

Por conseguinte, os conteúdos culturais que o mundo tecnológico vai-nos proporcionando podem estar fornecendo mercadorias e novas formas de vida cotidiana e, provavelmente, pode estar mantendo a classificação segundo mecanismos postulados pelo capitalismo os quais não se importam com a democratização da comunicação. Na medida em que esses produtos podem manifestar através das formas divorciadas da unicidade da vida, podemos indagar:

1- O que pode estar ocorrendo em nossa formação identitária com o uso desses aparelhos?
2- O que estaríamos reforçando em nossas ações diárias?
3- O que emerge que disponibiliza as possibilidades de um mundo mais solidário?
4- Em outras palavras, qual o diálogo cultural que estamos travando no cotidiano das salas de aula e/ou nas escolas com o aparecimento e uso do aparelho celular?

Ligada desse modo à possibilidade de conseguir um celular em prestações pequenas, também podemos estar reforçando quem pode e quem não pode ter diferentes recursos para se comunicar melhor ou, ainda, manusear as novas formas digitais.

Os celulares mais sofisticados com os incitamentos de jogos mais modernos, gravador, internet, aquele som mais novo, a música diferente parecem provocar desejos e valores intermináveis! Tudo se produz como uma maquinação de grande escala. Nestas circunstâncias o desenho da sala de aula vai-se modificando e nos modificando sem, muitas das vezes, percebermos as mudanças éticas das relações que se manifestam diariamente, apesar dos currículos oficiais desconsiderarem os currículos praticados.

As práticas pedagógicas que desempenhamos a partir da telefonia celular são aprendidas fora e, agora também, dentro da escola, sendo, portanto, bases para o diálogo constante e imprevisível com as culturas que permanecem presentes nas escolas. Dito de outra maneira, a cultura escolar que caminha com toda a sua herança baseada na ciência moderna entra em constante diálogo com a lógica que preside o desenvolvimento das ações cotidianas com a lógica que passamos a presidir com o uso da telefonia celular nas salas de aula. Neste caso, o que se pode dizer é que o celular vem dialogando com as culturas as quais possivelmente já estão presentes nas salas de aula e/ou no espaço escolar com uma disposição que pode possibilitar emergir novas culturas e novas práticas pedagógicas.

Estando na riqueza do cotidiano vivido nas salas de aula e nas escolas, prestando atenção ao que ouvimos, sentimos e vemos a partir das ações provocadas por esse minúsculo aparelho que vai invadindo nossas salas de aula, pudemos entender as ações concretas de professores e alunos, viabilizando, a partir disso, uma superação dos modelos que pretendemos explicar as situações de ensino-aprendizagem bem ou mal sucedidas através de elementos genéricos que as caracterizam.

Provavelmente, muitos de nós conhecemos ou vivemos alguma história de escola na qual o celular aparece fazendo-nos desequilibrar de nossas certezas pedagógicas. Os estudos do processo de tessitura do conhecimento em rede nas classes de alfabetização trazem o ato de aprender a ler como um ato complexo cuja compreensão se situa de vários eixos: é atribuir sentido a algo escrito, é questionar algo escrito como tal a partir de uma expectativa real, envolvendo necessidades e prazer, numa verdadeira situação de vida.

Nossas crianças se desenvolvem num mundo digital e o celular é um recurso utilizado por elas, e não devemos negligenciar este fato; portanto, vale a pena observar a influência do celular e do mundo digital no processo de ensino aprendizagem mesmo quando a tecnologia não é usada como recurso pedagógico na sala de aula. Parece que o celular e educação não andam juntos. Nesta nova forma de compreender as possibilidades dos usos do aparelho celular durante a fase escolar, é para se repensado uma vez que o uso dos celulares nas escolas indica novas alternativas de práticas pedagógicas.

Afinal, como já nos referimos, é preciso entender o que acontece no cotidiano da sala de aula que dialoga com as culturas que entram nas escolas, modificando ações e sendo modificadas pelas culturas e representações constitutivas de saberes que circulam, ainda de forma hegemônica, nas salas de aula de professoras em atuação e com professoras em processo de formação.

Nesta perspectiva, tecemos a idéia de que o poder da ação também precisa ser diversificado e a adoção de novas práticas, incluindo as novas tecnologias que invadem as escolas, quer ela queira ou não, é condição para que os alunos e alunas entendam que também podem ensinar, questionar e orientar professores e colegas. Desse modo, a tão sonhada emancipação se torna realidade.

Obs.: resumo do texto apresentado no “IV Seminário Internacional As Redes de conhecimentos e a tecnologia: práticas educativas,cotidiano e cultura”, realizado na UERJ de 11 a 14 de junho de 2007.

Fonte: http://www.revistateias.proped.pro.br/index.php/revistateias/article/viewFile/182/18

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