O know-how de perguntar

Paulo Périssé| 2007-03-08

De uns anos para cá, nota-se uma preocupação progressiva em transformar a escola numa comunidade inquiridora. Isso requer uma revisão significativa da maneira de ensinar. A primeira mudança tem que ser a de criar no educando o hábito de perguntar, em vez de só responder.


A escola reprodutora e copista, cujo modelo dominou o cenário da educação durante tantos anos, adestrava a responder perguntas, para as quais só havia uma única resposta aceitável. Pergunte, por exemplo, a uma plateia com centenas de pessoas o que é uma ilha e você ouvirá de todos, em coro, a mesma resposta: “uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. Pergunte como se chamam as habitações dos povos nativos no Brasil e a resposta será “oca”. Poderia até ser, se fosse na língua Tupi, mas e as habitações dos Wayãmpy, dos Yanomani, dos Xavantes e dos Pataxó? E o que dizer dos Fulniô, dos Karajá e dos Yawalapiti? Será que os Txukahamãe, os Kiriri, os Krahô, os Maxakalí e os Kantaruré não têm casa? São centenas de nações indígenas, com línguas muitos distintas, mas a escola só ensinava “oca”.

Pior ainda era a definição de democracia: “o governo do povo, para o povo e pelo povo”. Várias gerações de brasileiros aprenderam a repetir este verbete do dicionário, mas até hoje continuam sem ter ideia do que isso significa. E não falo das classes menos favorecidas; essas nem iam à escola.

Mesmo hoje, não se ensina ainda que qualquer pergunta pode ter várias respostas possíveis ou que, como nos relembra Edgar Morin (2000), não há conhecimento humano “que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão”. Quando se pergunta, geralmente parte-se do pressuposto de que o conhecimento é inequívoco, descontextualizável, unidimensional, fragmentável e simples. Por isso, ingenuamente se induzem respostas com a forma de indagar:

“O Pelourinho é um ponto turístico da cidade Salvador. Será que isso tem a ver com a nossa História?”.

“Vocês sabiam que existem vários tipos de sangue?”

“Será que existem casos em que o som do RR pode ser representado com apenas um R?”

Em todos os exemplos reais acima, as perguntas reduzem o universo infinito de respostas possíveis a apenas duas: “sim” ou “não”. Além disso, como apenas uma delas pode estar correcta, se uma não é a desejada, com certeza será a outra. Perguntas do tipo “sim ou não” ou que induzem a uma resposta específica não estimulam a razão, nem fazem pensar (quando muito, adivinhar). Que tipo de pergunta tem maior probabilidade de induzir à fantasia e fazer o raciocínio germinar, a que procede sinteticamente (8 + 6 = ?) ou a que propõe uma abordagem analítica (12 = ? + ?)?

De uns anos para cá, nota-se uma preocupação progressiva em transformar a escola numa comunidade inquiridora. Isso requer uma revisão significativa da maneira de ensinar e, em particular, de como perguntar. Em primeiro lugar, a escola hegemónica treinou todos os que passaram por ela para serem “respondedores” de perguntas e não formuladores de questões. Bons pesquisadores, no entanto, não são os que respondem e sim os que possuem tendências inesgotáveis para indagar. Numa comunidade inquiridora, o educador precisa de criar condições para que as crianças formulem as questões. Deve haver uma ênfase no fluxo contínuo de indagações, de modo a fomentar pessoas curiosas, sistemáticas e persistentes nas suas investigações. A primeira mudança de enfoque, portanto, tem que ser a de criar no educando o hábito de perguntar, em vez de só responder.

Mas simplesmente perguntar aleatoriamente, como um atirador vendado no escuro, também não resolve. Há uma grande diferença entre o que Paulo Freire (2001, 2002) chama de curiosidade ingénua ou desarmada e a curiosidade epistemológica ou crítica. “A curiosidade crítica é metódica, exigente”, ela toma distância do seu objecto e dele se aproxima com inquietação indagadora para conhecê-lo profundamente, “desocultá-lo” e dele falar prudentemente.

O questionamento serve para estruturar o pensamento. É necessário saber identificar que tipo de pergunta realmente favorece a uma organização do conhecimento e avanços conceituais, de outros que, ao contrário, simplesmente colectam factos isolados e saberes desunidos. Estes últimos testam a memória, mas não o raciocínio. A aprendizagem dialógica, definida por Flecha e Tortajada (2000) como aquela que é “derivada da utilização e do desenvolvimento das habilidades comunicativas”, caracteriza-se pelo discurso progressivo. Questões abertas favorecem a transformação das informações em conhecimentos, porque geram várias respostas possíveis, pontos de vistas diferentes e, consequentemente, grande número de trocas e diálogos, tanto consigo mesmo, como com os outros.

Certa vez uma mente inquiridora perguntou: “E se eu estivesse caindo no espaço, à velocidade da luz, dentro de um elevador, com um buraco na parede? E se um facho de luz entrasse no elevador pelo buraco, o que aconteceria? Foi investigando as ramificações estruturantes dessa situação altamente improvável que Albert Einstein desenvolveu alguns dos primeiros conceitos sobre a teoria da relatividade”. Perguntas do tipo “E se…” constituem um dos recursos mais fáceis para fazer a imaginação deslanchar e entrar na modalidade germinativa de raciocínio. É uma forma de se liberar dos preconceitos profundamente enraizados, considerar o possível, arriscar o impraticável e sondar o impossível. Quando se pensa assim, as limitações do mundo real não existem, a não ser que as imponhamos com a nossa obsessão adquirida de achar a resposta certa.

É comum encontrar, hoje em dia, educadores que recitam de cor e salteado, em bom “pedagoguês”, que a função da escola é “formar” cidadãos justos, solidários, críticos, reflexivos e autónomos. Para preparar pessoas com as três últimas características a escola precisa, em primeiro lugar, de educadores que sejam eles próprios críticos, reflexivos e autónomos, ou corre o risco de ter um discurso dourado, mas que não se reflecte na prática. Para começar, os educadores precisam perguntar menos aos educandos e indagar mais a si mesmos. Quando isso estiver garantido, aí sim, poderão ensinar às crianças a perguntar mais e a estruturar o seu próprio questionamento, porque quem aprende não pode somente responder.

REFERÊNCIAS:
Flecha, R. e Tortajada, I. (2000) Desafios e saídas educativas na entrada do século. Em F. Imbernón (Org.), A Educação no Século XXI. Porto Alegre: Artes Médicas.
Freire, P. (2001), Política e Educação, São Paulo: Cortez.
Freire, P. (2002), Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra.
Morin, E. (2000), Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. UNESCO/Cortez Editora.

*Paulo M. Périssé é Doutor em Psicologia pela USP/SP, coordenador do Projeto The Global School®, Líder Pedagógico da Escola de Educação Internacional da Bahia e coordenador dos cursos de pós-graduação em Educação da Infância na Perspectiva Lúdica e Educação Inclusiva da Universidade Católica do Salvador (UCSAL).

Fonte: http://www.educare.pt/educare/Detail.aspx?opsel=2&schema=1CD970AB0836334EB627B1FF128684C3&contentid=8CBF7FBC502D473A9EAFDEE004BF0503&channelid=8A4D0E7C9C13D646AD251EDC9DBAA203

4 comentários sobre “O know-how de perguntar

  1. Conceição Rosa disse:

    O mundo se faz ao se fazer mais e melhores perguntas. A campanha do Canal Futura está aí reafirmando isso: "Não são as respostas que movem o mundo…" Se não somos curiosos, se não demonstramos interesse em aprender, se não nos empolgamos com nossos objetos de estudo, como "contaminar" os alunos com a sede de saber, a vontade de procurar, o desejo de aprender?

  2. Profª Maria Dulce - Francês disse:

    Ótima colocação: se queremos formar jovens críticos, relexivos e autônomos, devemos ter antes de tudo estas competências desenvolvidas e aplicá-las no nosso dia a dia, naturalmente. O problema é o professor não fazer uma autoavaliação, por falta de tempo e por falta de orientação (não temos momentos para refletir sobre nossa prática pedagógica)ele segue, coitado,repetindo os erros do passado.Parabéns pelo blog. Muito instrutivo, adorei. Maria Dulce, professora de francês do C. E. Vicente Jannuzzi

  3. Robson Terra disse:

    "É comum encontrar, hoje em dia, educadores que recitam de cor e salteado, em bom "pedagoguês", que a função da escola é "formar" cidadãos justos, solidários, críticos, reflexivos e autónomos. Para preparar pessoas com as três últimas características a escola precisa, em primeiro lugar, de educadores que sejam eles próprios críticos, reflexivos e autónomos, ou corre o risco de ter um discurso dourado, mas que não se reflecte na prática. Para começar, os educadores precisam perguntar menos aos educandos e indagar mais a si mesmos. Quando isso estiver garantido, aí sim, poderão ensinar às crianças a perguntar mais e a estruturar o seu próprio questionamento, porque quem aprende não pode somente responder."

    De fato a conclusão deste texto é… CON-CLU-SI-VO!
    DEVEMOS REFLETIR SOBRE NOSSA PRÁTICA PEDAGÓGICA, SOBRE NOSSA FORMAÇÃO E SOBRE AS INFORMAÇÕES QUE RECEBEMOS E REPRODUZIMOS. DEVEMOS REFLETIR SOBRE AS 'VERDADES' QUE TRANSMITIMOS.

    VALEU!

    ROBSON TERRA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s