A didática da tia enrolona


Desde que li um post sobre os professores enrolões, que adoram passar seminários para os alunos darem aula no lugar do mestre, fiquei com vontade de fazer esse post para tratar de dois mitos que comumente acabam por mesclar-se em meio a esses debates sobre didática.

O primeiro mito é o de que professor moderno não dá aula expositiva e o segundo é o mito de que o seminário dispensa a atuação do professor. Duas tolices que não encontram amparo em nenhuma publicação séria sobre a didática, mas são dogmas da “Didática Antipedagógica da Professora Enrolona”.

Para ser uma boa professora enrolona, o primeiro mandamento a ser seguido é o de recusar-se a dar aula expositiva, essa coisa chata, cansativa, enfadonha e fora de moda. Aula expositiva requer domínio de conteúdo, competência na oralidade, competência no gerenciamento do tempo pedagógico, habilidade na utilização de recursos escritos (a boa e velha lousa ou transparências/slides com textos, gráficos, tabelas etc.) e outros recursos visuais.

Ora! É trabalho demais! A enrolona, moderna toda, não trabalha: faz os outros trabalharem por ela. Assim, aula expositiva está fora de cogitação. E, como argumento fundamental para justificar sua não-atuação em sala, recorre à falácia de que ninguém ensina ninguém, o aluno só aprende de verdade sozinho e com seus colegas. É mesmo muito fácil distorcer avanços na teoria pedagógica para satisfazer a preguiça e ocultar a incompetência. É verdade que o papel ativo do aluno é ponto central nas didáticas contemporâneas, mas isso não significa varrer o professor da sala de aula. Em contexto educacional, o aluno só é ativo quando o professor lhe proporciona situações didáticas que lhe permitam ser ativo. Dizer “virem-se” não é uma situação didática, é uma situação de abandono didático. Se o professor abandona o processo de ensino, o aluno abandona o processo de aprendizagem. ‘Cabou-se.

Mas a enrolona vai contra-argumentar “nas aulas expositivas o aluno não pode ser ativo, pois quem expõe é o professor”. Quem expõe é o professor, mas o aluno participará se o professor permitir que ele pergunte, faça ponderações, e se ele for questionado sobre o tema que está sendo exposto. Diálogo é uma coisa muito antiga, do tempo das cavernas, não há criatura humana que o desconheça. Estabelecer o diálogo em sala de aula é uma estratégia pedagógica que enriquece a aula expositiva. Aquela exposição “monologada”, na qual o professor é o detentor absoluto do saber, está, de fato, superada. Aliás, fazer monólogo em sala de aula é ser tão enrolão quanto não dar aula expositiva jamais. Com tanto acesso fácil à informação, não faz sentido o professor achar que seus monólogos são a única fonte do saber na face da Terra. E é justamente por ter tanto acesso à informação que o aluno precisa da intervenção pedagógica do professor para que aprenda a reter o que é relevante, pertinente e de boa qualidade, num diálogo qualificado e proveitoso, sob a orientação didática do competente professor.

E porque frisar qualificado e proveitoso? Porque a enrolona, esperta toda, adora deixar os alunos abrirem o falador em sala e terem verborragias recorrentes para que ela não precise dar aulas. Segundo o manual antipedagógico da professora enrolona, tudo é motivo para os alunos contarem causos, falarem da novela, do Fantástico, do BBB e, na falta total de assunto, contar receita de bolo. Vale tudo e a boa enrolona precisa saber dar o fio da meada logo nos primeiros minutos de aula para os alunos desenrolarem o novelo durante as duas horas seguintes.

Mas e o seminário? Reza a cartilha da enrolona que o seminário é tudo quando se trata de didática moderna: o aluno pesquisa, mergulha no assunto, desenvolve o tema e termina a cadeira com o conhecimento na ponta da língua. De fato, o seminário pode ser uma excelente ferramenta para desenvolver tudo isso. Mas o que os professores seminaristas mais fazem nas universidades (e isso por pura falta de formação didática misturada à preguiça e esperteza) é: vire-se, aluno!

Seminário não é mandar o aluno se virar para ensinar o programa do curso no lugar do professor, mas costuma-se pensar que seminário é isso. Ora, o seminário, ainda mais do que a aula expositiva, exige atuação constante do professor. Ao longo da preparação dos seminários, é o professor quem:

É quase uma orientação de TCC, pois exige acompanhamento e intervenção pedagógica constante, até o produto final. Mas é claro que isso não consta no manual didático da enrolona. A tia enrolona se vale da ignorância dos alunos sobre didática e fica na moita, só na encolha, ganhando seu dinheirinho à custa do trabalho desorientado de seus pupilos. A única coisa que a tia enrolona ensina de fato, e isso ninguém pode negar, é a receita da malandragem em contexto escolar: eu finjo que ensino, tu finges que aprende e, no final, todo mundo é aprovado e eu embolso a minha grana. Para o aluno enrolão (esse também existe), a tia enrolona é a professora perfeita. Mas tomem cuidado, pupilos desavisados, pois existe tia que além de enrolona é traíra: embolsa o salário sem ensinar nada e, ainda por cima, reprova o aluno! Aliás, esse é mais um mandamento que consta da “Didática Antipedagógica da Professora Enrolona”: o bom professor reprova pelo menos 25% da turma!

Amanda Costa é designer educacional e graduanda em Pedagogia pela UFPE

ps: Quem quiser um excelente estudo sobre aplicação de técnicas de ensino (o que inclui o seminário e a aula expositiva), sugiro o livro “Técnicas de Ensino: Por que Não?”, organizado por Ilma Passos Alencastro e publicado pela Papirus. Esse livro é oposto da “Didática Antipedagógica da Professora Enrolona”.

Fonte: postado em Práticas Pedagógicas

Um comentário sobre “A didática da tia enrolona

  1. DORCAS disse:

    >ADOREI O POST . ESTAMOS CHEIOS DE PROFESSORES MODERNINHOS QUE SABEM DESENVOLVER PROJETOS , DANDO SEMINÁRIOS PARA OS ALUNOS , ACHANDO QUE REALMENTE A APRENDIZAGEM ACONTECE , SEM TEREM O MINIMO DE PREOCUPAÇÃO SE ESTÁ EXISTINDO UMA SIGIFICATIVA APRENDIZAGEM .

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