História(s)

Historiador e jornalista fala sobre a rede social criada por ele, o ‘Café História’. No portal, qualquer pessoa pode ler e publicar conteúdo sobre a matéria. É a história contada por muitas mãos.

Por: Thiago Camelo

Publicado em 22/12/2009 | Atualizado em 22/12/2009
Nos últimos anos, uma nova profissão surgiu no mundo virtual: o mediador de comunidades. É aquele sujeito que tem de lidar com milhares – em alguns casos, milhões – de pessoas publicando conteúdo em um portal. A mediação se dá quando o responsável pelo site é obrigado a proibir certos textos, indicar do que se trata o veículo, conversar com os leitores/produtores e por aí vai.
Bruno Leal, de 27 anos, é historiador e jornalista. Optou também por ser um mediador, quando em 2008 criou o Café História, rede social na internet em que qualquer usuário pode publicar textos relacionados à história. Quase todas as ferramentas da rede estão disponíveis para o membro da comunidade: criação de blogues, fóruns, páginas pessoais e possibilidade de comentar e publicar conteúdo. Além disso, há uma seção em que os próprios administradores do portal postam notícias.
Em conversa por e-mail, Bruno Leal conta como faz para moderar uma página com quase 16 mil usuários cadastrados. Fala também sobre a sua crença de uma história construída de modo coletivo – em que cada um contribui com uma parte de conhecimento – e de como teve o estalo de criar o site quando assistia a uma aula entediante de história. 
CH On-line:  Bruno, você é jornalista e historiador. Quando e por que você teve a ideia de, de certo modo, unir essas duas profissões e criar o Café História?

“Tudo começou na graduação de história, durante uma aula bem tradicional, repleta de fatos, datas e poucos recursos didáticos”

Bruno Leal: Tudo começou na graduação de história, em meados de 2005, durante uma aula bem tradicional, repleta de fatos, datas e poucos recursos didáticos a não ser a voz do professor. Nem quadro-negro se usava. Era uma aula pouco atrativa, muito chata. Naquele momento, eu pensei que as novas tecnologias da comunicação (que eu tanto discutia e estudava no curso de jornalismo) poderiam ser úteis na transformação de práticas pedagógicas como aquela e também na pesquisa e divulgação da história. O primeiro impulso foi a criação de um blogue. Não deu certo. Mas persisti com a ideia. Três anos depois, criei o Café História, que não é nem um blogue e nem um site propriamente dito, mas uma rede social. Era daquilo que eu precisava.
Você se baseou em algum outro site colaborativo que já existia, fosse ele de história ou não?
De certa forma, posso dizer que sim. Eu descobri a plataforma Ning (onde o Café História está hospedado) através de minha antiga gerente no trabalho. Ela me apresentou, no início de 2008, uma rede social chamada Clube de Tênis, construída por um amigo. Fui verificar do que se tratava. Interessou-me muito mais a dinâmica, as ferramentas e estrutura do Clube de Tênis do que o conteúdo. Na hora, descobri que precisava de uma rede social. Era como um Orkut, mas com muito mais opções de interatividade e totalmente segmentável. E claro, o melhor de tudo: fácil e gratuito.
Quase dois anos depois do surgimento do portal, você acha que já há adesão da academia ao Café História? Em suma, você acha que a atuação do site já mudou o comportamento dos professores e dos historiadores diante da internet e das novas tecnologias?

“Nenhum outro espaço virtual consegue falar diretamente com 16 mil historiadores”

Começo falando sobre adesão. No âmbito universitário, as conquistas estão dentro do esperado. Diversos historiadores acadêmicos já fazem parte do Café História. Nenhum outro espaço virtual consegue falar diretamente com quase 16 mil historiadores. Isso é superimportante para o meio acadêmico: o Café está se tornando um espaço de divulgação de eventos, cursos e, sobretudo, pesquisa. É a possibilidade de reunir pessoas com um mesmo interesse. Contudo, ainda espero maior participação da universidade, especialmente através de parcerias. Já no âmbito das escolas, os professores de história aderiram em massa, o que me deixou muito contente.
Esses professores entram no Café História para procurar material para as aulas, compartilhar dúvidas ou mesmo trocar experiências. Muitos, inclusive, indicam a rede para seus alunos, o que é, na minha opinião, algo fantástico, pois professores e alunos fazem parte de uma mesma rede social. Trata-se de uma construção coletiva e colaborativa que não reconhece as tradicionais hierarquias. Assim, arrisco dizer que, se o Café História não transformou o comportamento dos professores (o que leva tempo), ele vem, no mínimo, conquistando a atenção deles para os benefícios que essas tecnologias oferecem.

historias
Acima, a página inicial do portal.



Como é coordenar uma rede de conhecimento coletivo num ambiente em que, muitas vezes, o trabalho e a produção são individuais? Inclusive, onde muitas vezes há disputa de ego e vaidade.

“No fundo, no fundo, todo conhecimento é coletivo”

No fundo, no fundo, todo conhecimento é coletivo. Todo conhecimento se baseia em uma rede de saberes historicamente produzidos e, quase sempre, acumulados. Isaac Newton já afirmou: “Se consegui enxergar mais longe, é porque procurei ver acima dos ombros de gigantes”. Mas entendo o outro lado da pergunta: como mediar opiniões que quase sempre são conflitantes? Isso nem sempre é fácil. E tenho certeza de que isso está relacionado a uma questão de sensibilidade. Boa parte das pessoas ainda não sabe trabalhar em coletividade. O que é um problema, já que o Café História se baseia no conceito de web 2.0, ou seja, de web colaborativa.
Em alguns fóruns de discussão do Café, por exemplo, há pessoas que defendem uma verdade e pouco estão abertas à verdade do outro. Por vezes, há mensagens irônicas, sarcásticas e até mesmo debochadas, o que acaba colocando em risco a boa convivência da rede. Esse é o momento de a mediação agir. E quando falo em mediação, falo não só na administração do Café História, mas também na ação de outros membros. Em conjunto, tenta-se mostrar a todos a importância de respeitar a opinião alheia, de conduzir um fórum com bom senso e harmonia. Se queremos construir uma ‘boa história’, uma história ética e de qualidade, devemos saber escutar o outro tem a dizer com o máximo de respeito e consideração. Ninguém entra em uma rede para brigar, mas para cooperar.
Você diz que se orgulha de ter uma rede social em que a produção de conhecimento é coletivo. Acaba dando a a entender que, de certo modo, discorda do pensamento acadêmico vigente há tanto tempo. Você poderia falar um pouco da sua posição quanto à produção de conhecimento coletivo?
Eu não acho que o mundo acadêmico se caracterize pela produção individual do conhecimento, até porque, como eu disse, a construção do conhecimento é sempre coletiva. Na opinião de alguém que também vive o ethos acadêmico, acho que o problema da academia, hoje, são as ilhas nas quais esse conhecimento é produzido. Há pouca sinergia entre cursos, entre departamentos, entre universidades. Há pouco diálogo até mesmo com os meios de divulgação. Isso faz com que o saber fique restrito, encapsulado em pequenos recipientes. Penso que é preciso colocar as partes para conversar, para trocar. No caso das ciências humanas, a divulgação científica ainda é muito prematura, caminha a passos lentos, ao contrário das ciências exatas e biológicas que, apesar de reclamarem da imprensa, já possuem um caminho de divulgação bem sedimentado.

“Não podemos de forma alguma fugir da dimensão coletiva da produção do conhecimento”

Não podemos de forma alguma fugir da dimensão coletiva da produção do conhecimento. Basta pensar no mundo em que viemos: YouTube, Wikipédia, Facebook, celulares com internet, Twitter, interdisciplinaridade etc. O mundo está se conectando. É preciso aproveitar esta possibilidade, esses novos canais. Seria uma grande ironia (e tristeza) que a primeira civilização realmente global conversasse tão pouco.
Você, como em todo site colaborativo, tem de lidar com trolls (usuário que, propositalmente, quer causar confusão), com colaborações que fogem à proposta do portal, com conflitos inevitáveis; enfim, como é moderar uma comunidade com 16 mil usuários? 
O Café História é destinado a discussões sobre história. Mas todos os dias pessoas adicionam todo tipo de conteúdo: de fotos de férias familiares a fóruns com propostas religiosas. Mas isso não é feito propositalmente. Ocorre por desconhecimento dos membros, que ainda não se apropriaram muito bem da proposta da rede e de sua linguagem. Tanto que, pouco tempo depois, as pessoas entendem o conteúdo a que a rede se destina. Esse tempo, esse erro é normal. Mas já escutei um ou outro grito de ‘censor’, ‘ditador’ ou ‘autoritário’. O que é muito feio. Primeiro porque mediação não se confunde com censura ou autoritarismo. Quem classifica a coisa dessa maneira não conhece o propósito de uma rede social e ainda banaliza essas palavras que, em um país como o Brasil, significa muita coisa.
Você disse que ainda não ganha dinheiro com o Café História, que ainda gasta com ele. Como fazer para que essa iniciativa seja economicamente viável? Você já tem algum plano de patrocínio ou de participação em editais?
O Café História é um trabalho como qualquer outro. Há produção de conteúdo, realização de promoções culturais, ações de marketing, assessoria de imprensa e moderação. Ou seja, há muito trabalho para ser feito! Por enquanto, é possível administrar tudo sem receita. No entanto, já começamos a pensar em um modelo que gere algum dinheiro, principalmente para pagar as despesas operacionais. Vale lembrar que o Ning é gratuito, mas não por muito tempo. Toda rede tem uma máximo de bandagem. Quando tivermos mais conteúdo, essa bandagem chegará ao limite e precisaremos comprar mais espaço. Estamos estudando saídas para 2010. É muito provável que isso seja resolvido através de editais ou de patrocínio/parceria com empresas.
É claro que um site como o Café História pode ajudar professores em sala de aula. Mas você já pensou em alguma metodologia a respeito disso? De produzir algum material, de dar oficinas para professores, de visitar universidades – algum jeito de se aproximar da academia?
Sem dúvida é algo que nos interessa bastante. Temos interesse não só em desenvolver conferências, congressos e seminários em parceria com universidades, como também cursos de formação livres e/ou de formação continuada para professores de história. É possível que em 2010 ofereçamos cursos livres. Isso está em desenvolvimento.
Como você vê a relação dos professores de história com as novas tecnologias e com a web 2.0?
Tradicionalmente, o historiador é associado ao velho, ao empoeirado, àquilo que passou e não ao futuro. Nada mais enganoso. Mas nos últimos anos isso vem mudando. Cada vez mais vejo professores de história criando blogues, usando a internet/computador como parte no processo de ensino-aprendizagem e também de pesquisa. Isso muda nossa imagem. Como a tecnologia está sempre fazendo mais parte de nosso dia a dia, acho que o historiador logo terá familiaridade com as novas mídias, espantando de uma vez por todas essas visões nada atraentes de nossa profissão.
Quais são os planos para o Café História, as novidades que podemos esperar?
Há uma grande expectativa para lançar em 2010 um Podcast Café História (programa digital de rádio), inteiramente voltado para história, com músicas e informação. E quem sabe uma TV Café História. Mas isso são cenas do próximo capítulo… (risos).


Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/historia-s

Um comentário sobre “História(s)

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