Ensino Médio – Curso Normal: colaboração e autoria mediadas pela web

Professores precisam compreender que vivemos na era da comunicação e da informação, que nenhuma atividade pode prescindir da comunicação, educação é essencialmente uma atividade colaborativa. (…) Professores precisam inverter a dinâmica que nos torna repetidores e substituíveis num sistema escolar que castra ao invés de despertar capacidades. Professores precisam redescobrir o diálogo para que possam, novamente, formar gente!!! E gente, acredite, se comunica!!! (Sérgio Lima)

Em 2009, fui designada para o Ensino Médio – Curso Normal (é assim que, atualmente, se nomeia essa modalidade).

Mais ou menos nessa época, dava meus primeiros passos na web, no Ufa! Bloguei! e no grupo Blogs Educativos – espaços de diálogo fundamentais para a construção da minha presença online. A partir deles, conheci/conheço pessoas muito generosas com quem aprendo sempre!

Estava claro, para mim, que essas descobertas, que me provocavam profundamente, que me faziam (re) pensar as práticas pedagógicas, deveriam ser compartilhadas com os alunos (professores em formação inicial).

Então, as aulas de língua portuguesa e de literatura (e, depois, de didática da linguagem e de literatura infantil) começaram a ser mediadas, também, por interfaces da web – tentativas de ampliar os espaços/tempos da sala de aula: nasciam o blog Espichando a Conversa (nossa referência até hoje) e a rede O Normal tá na rede! (descontinuada, quando o lugar em que estava hospedada – Ning – deixou de ser gratuito).

Aos poucos, fomos buscando outras ferramentas que poderiam nos ajudar na construção coletiva do conhecimento; então, criamos textos coletivos no GDocs; publicamos alguns projetos no GSites; trocamos ideias no grupo Curso Normal – Elisa Valls, no Facebook.

Ainda na semana passada, começamos a experimentar o aplicativo Docs, no Facebook, que permite edição compartilhada de textos, apresentações, tabelas… E a organização da Revista Era uma vez… que servirá de repositório para nossas leituras e reflexões sobre literatura infantil.

Penso que essa inserção tecnológica dos alunos poderá fazer uma diferença significativa na atuação com as crianças da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental; não, apenas, pelo processo de internalização do uso das TIC, mas, principalmente pelas concepções de aprendizagem que sustentam essas práticas.

Ou seja, ao participar de redes de aprendizagem online, baseadas em princípios do construtivismo, da pedagogia freireana que fundamentam a aprendizagem colaborativa, o futuro professor, embora tenha uma história escolar dentro do modelo instrucionista, centrado no professor, baseado na repetição, no individualismo, começa a vislumbrar novas formas de aprender – mais participativas, compartilhadas, dialógicas, criativas, com mais autonomia, com vistas a transformar a realidade.

Além da preocupação com o uso das interfaces, pretendo contribuir para que os alunos entendam a web não só como fonte de informação, mas como possibilidade de aprender junto com colegas de outros lugares, desvendando novos saberes, divulgando e partilhando projetos, que deram certo ou não, para serem discutidos, repensados, qualificados colaborativamente. Como nos provoca Vani Kenski,

Participando, colaborando, reconhecendo e sendo reconhecida pelos seus pares, a pessoa que atua intensamente na comunidade virtual sente seu poder, desenvolve suas potencialidades comunicacionais, libera seus talentos. (…) Aprende a conviver com o grupo, a colaborar e respeitar as pessoas, a falar e a ouvir (ainda que ambos ocorram em intercâmbios escritos), a superar conflitos, expor opiniões, trabalhar com pessoas que não conhece presencialmente, mas com as quais se identifica no plano dos interesses e ideias. 

Nesses quatro anos, enfrentamos algumas dificuldades – laboratório de informática volta e meia sem condições de uso, embora os esforços da equipe diretiva da escola, acesso à rede sem fio da escola bastante precário – muitas vezes, andamos com os notebooks (da professora, de alguns alunos) e com os celulares pela escola atrás do sinal ;). Mas, no meu ponto de vista, o principal desafio: ainda, a pouca adesão dos outros professores o que torna essas ações meio individuais e, por isso, meio excêntricas (?) no contexto da escola.

Sim, entendo que o processo de introdução das TIC depende de ações coletivas, presentes no Projeto Político Pedagógico, mas me alegra pensar que nossas práticas, no ensino médio – curso normal, funcionaram como um primeiro passo na direção da aprendizagem colaborativa mediada pela web,

Quem começa? Qualquer um pode ser elemento desencadeador do processo, de um dos processos que vai estar ocorrendo ao mesmo tempo, com diversos outros, iniciados em outros pontos! Todos fazemos parte da rede… se um avança todos avançam um pouco, mas se vários avançam, a mudança não só é maior e mais rápida como permite nova organização. Tanto a autonomia de cada um como a cooperação entre todos são fundamentais! (Fagundes, Sato e Maçada) 

Como exemplos de avanços provocados pelo primeiro “passo”, posso mencionar

  • a interação no grupo do Facebook: muito significativa e com bastante autonomia; os alunos contribuem, ativamente, para a organização e manutenção do grupo; há alguns professores do curso que, também, colaboram com frequência; além de professores e alunos de outras escolas de diferentes partes do Brasil;
  • os blogs pessoais criados por alunos, em que publicam sobre temas de interesse pessoal e sobre temas relacionados ao curso;
  • os blogs criados por alguns professores com conteúdos e trabalhos relacionados às disciplinas;
  • o uso do GDocs, por alguns alunos, com autonomia, para produzir trabalhos em grupo;
  • a utilização do GDocs, também, na elaboração de projetos e de planos e aula, durante o período de pré-estágio, que são compartilhados com as professoras orientadoras, facilitando a escrita e reescrita desses textos;
  • o movimento da escola para marcar sua presença online, especialmente, no blog Elisa em rede, em que se encontram muitas produções dos alunos e de professores de diferentes disciplinas, tornando-se uma referência para a comunidade escolar;
  • a criação do Cultura Jovem: o jornal do Elisa, fomentada pelo professor de História do Ensino Médio, editado por alunos dos terceiros anos do Ensino Médio e do Curso Normal, primeira vez que as duas modalidades oferecidas na escola trabalham de forma colaborativa.

De tudo, o que nos agrada mesmo é mostrar que é possível, sim, realizar ações inovadoras na escola pública. E, o melhor de tudo é ver alunos e professores saindo da cômoda situação de recebedores de informação para a desafiadora situação de autores, de produtores de conhecimentos.

Referências bibliográficas:

 FAGUNDES, L., SATO L. S. e MAÇADA, D. L. Aprendizes do futuro: as inovações começaram. Coleção Informática para a Mudança em Educação. MEC/Seed/Proinfo. s/d. Disponível em . Acesso em 14 nov. 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GUTIERREZ, Suzana. Redes sociais, apropriação (internalização!) tecnológica. Porto Alegre, maio. 2010. Disponível em: . Acesso em 14 nov. 2012.

JORDÃO, Teresa Cristina. Formação do professor para a educação em um mundo digital. In: Tecnologias Digitais na Educação. SEAD/MEC, ano XIX, boletim 19. nov./dez. 2009. p.9-17.

KENSKI, Vani. Comunidades de aprendizagem, em direção a uma nova sociabilidade na educação. Revista de Educação e Informática. SEED/SP, nº 15, dez. 2001. Não paginado. Disponível em . Acesso em 14 nov. 2012.

LIMA, Sérgio. Professores conectados (ou porque é preciso entrar na era da informação). ago.2007. Disponível em . Acesso em 14 nov. 2012. NEVADO, Rosane Aragon de. Ambientes virtuais que potencializam as relações de ensino-aprendizagem. In: Novas formas de aprender: comunidades de aprendizagem. Salto para o Futuro, boletim 15, 2005. p.14-20.

(+) Algumas pessoas/ideias que me inspiram:

Como entra a cultura digital na escola – Lea Fagundes
Educar é amar e não desistir – Adozinda Kuhlmann
Interatividade na educação – Marco Silva
Nós da educação – José Manuel Moran
O velho e o novo na educação – Beatriz Fischer
REA – Bianca Santana
Um jeito hacker de ser – Nelson Pretto

 Sobre a autora: Suely Aymone, graduada em Letras – habilitação em língua portuguesa e literaturas da língua portuguesa, pela FAFIUR/PUCRS, em 1984; especialista em Ensino da língua portuguesa, em 1986, pela PUCRS e em Tecnologias em Educação, em 2010, pela PUC-Rio; professora da rede pública do Rio Grande do Sul desde 2000; atualmente, trabalha com as disciplinas língua portuguesa, didática da linguagem e literatura infantil, no Ensino Médio – Curso Normal, no Instituto de Educação Elisa Ferrari Valls, em Uruguaiana – RS. Na web: blog: ufabloguei.blogspot.com / email: su.aymone@gmail.com / facebook: suely.aymone / twitter: @su_aymone

7 comentários sobre “Ensino Médio – Curso Normal: colaboração e autoria mediadas pela web

  1. Suely Aymone disse:

    Marli,
    tomara que tu tenhas razão sobre o segredo: usar as TIC na formação inicial, como autores, produzindo e compartilhando conhecimento!!!
    Tenho me dedicado muito a isso!
    Só saberemos daqui a algum tempo…
    bjs

  2. Suely Aymone disse:

    José Carlos, às vezes esse gás quase fica escasso, mas, então, os alunos com o entusiasmo, com a alegria e a inquietação característicos da adolescência, renovam tudo!
    E lá vamos nós para mais uma pequena “ousadia”!!!
    Obrigada pelo carinho! bjs

  3. Marli Fiorentin disse:

    Suely!

    Creio que o segredo é esse. Introduzir as tecnologias já na formação dos professores. Eles chegam para atuar já com a ideia e que precisam integrá-la à prática. Gosto muito de teu trabalho!Abraço!

  4. Laura Danielle Meyer Aguirre disse:

    Grande professora e grande amiga! A Suely é um exemplo para todas nós. Exemplo de superação, de amor a educação, de parceria e de incentivo.
    Com certeza, em minha atuação, sempre levarei um pouquinho da Suely comigo. Pois nas aulas desta professora maravilhosa me encanto, me divirto e aprendo de verdade!

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