Discutindo o uso do quadro-negro à lousa digital com o filme “O Quadro Negro – Takhté siah (2000)

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O Quadro Negro – Takhté siah (2000)

Título Original: Takhté siah
Título no Brasil: O Quadro Negro
Direção: Samira Makhmalbaf
Com: Bahman Ghobadi, Behnaz Jafari, Said Mohamadi
Gênero: Drama/Guerra
Ano de Lançamento: 2000
Duração: 90 min
País: Irã/Itália/Japão
Link: Site Oficial
Melhores críticas profissionais do filme: AQUIAQUI
Trailer: https://youtu.be/t4Mh0ZWL6Mk
Torrent: AQUI
Legenda: AQUI

Sinopse: Durante a violenta guerra entre Irã e Iraque, um grupo de professores iranianos, entre eles Bahman Ghobadi, diretor do filme “Tempo de embebedar cavalos” vagam pelas ruínas locais entre as duas fronteiras do Irã e do Iraque, com quadros negros às suas costas, em busca de alunos e de aprendizes e tentando ensinar mulheres e crianças a ler e escrever . Said e Reeboir acabam unidos nesta tarefa, liderando um grupo de crianças as quais precisam transmitir seus conhecimentos e manter  elas vivas.

Olá amigxs,

Tem coisa mais clichê que professor indicar filme de professor? Tem não, né? Mas mesmo assim aqui vai um que vale a pena assistir: O Quadro Negro de Samira Makhmalbaf. O filme ganhou o prêmio do Juri do Festival de Cannes no ano de 2000.

Só por essa breve descrição do filme eu já me cativaria para vê-lo, assim como me cativo pela cultura dessa nação tão sofrida e amargurada e por seus filmes maravilhosos produzidos pelos talentosos diretores/as locais. Essa obra é uma pálida perspectiva de como é a vida num lugar onde o iluminismo nunca chegou e a escolaridade é algo sem muita utilidade. Ver a boa intenção dos professores em ensinar mesmo numa região tão devastada e comandada pela estupidez; ver as diferentes funções e necessidades pelo qual acaba se transformando o tal quadro negro durante todo o filme; tudo converge para um triste e real panorama que nos ascende a uma imensidão de reflexões, como a do professor explicando a um garoto que uma das importâncias em se aprender a ler, é aprender histórias e o garoto em contrapartida diz que histórias ele já conhece de monte. Triste!

Quadro-negro

A diretora retrata fielmente no filme o que é um verdadeiro escândalo do quê é que a crença em Deus, ou de qualquer seita, faz ou pode fazer com um povo inculto. A ignorância associada à crença é motivo de faxina étnica, mutilação, exploração, causa de desespero, fome, desgraça, doenças, enfim, não consigo encontrar mais substantivos abstratos que convirjam para tanta infelicidade. Samira Makhmalbaf não exagera na exposição deste povo sofrido adaptado à uma paisagem inóspita que é mais um castigo do quê um abrigo.

Os filmes iranianos ganham cada vez mais espaço, primeiro com “O caminho para Kandahar” e agora com “O Quadro Negro”, não apenas pela qualidade mas também por serem uma verdadeira denúncia social do fundamentalismo islâmico iniciado por Aiatolá Khomeini e seu governo completamente contra os interesses ocidentais, que levou as potências da época a apoiarem Saddam Hussein na Guerra Irã-Iraque. Este filme é recomendado para aquelas pessoas que querem saber mais esse país que diferente do que muitos desinformados e conformados, que acreditam cegamente na versão americanizada da vida nos países muçulmanos, não é formado apenas por futuros terroristas em potencial. Agora um aviso muito importante: a narrativa do filme é lenta. Propositalmente lenta e arrastada. Ela diz numa das entrevistas que o filme tem esse ritmo para mostrar a lentidão dos dias das pessoas que estão ali no meio do nada, sem nada. Sem nada mesmo e principalmente sem o que move o mundo: sem esperança.

Vale ressaltar também que a diretora, a jovem Samira Makhmalbaf, deixou meio mundo estupefato há quatro anos com o filme “A Maçã”, (melhor critica profissional AQUI) com um singelo filme libertário feito pela cineasta quando tinha apenas 17 anos. Simpático, “A Maçã” era ainda uma promessa, com sua visão quase amadora de um “fait divers”. Em “O Quadro-Negro”, Samira deixou de ser promessa, pois aos 21 anos já conta com essa obra-prima em seu currículo.

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A Maçã – Sib (1998)

Há falas/diálogos no filme “O Quadro Negro” que eu simplesmente adoro. A primeira fala versa do amor dos professores por seus alunos e que por eles é capaz de tudo, até de arriscar a própria vida. A frase em questão é essa: “Meu coração é como um trem. Em cada estação, um entra, outro sai. Mas há alguém que nunca sai. Meu filho.” Qual professor nunca disse, “não mexe com meus alunos, eles são como filhos para mim”? Diz aí… E a outra que eu gosto muito é a que ele fala sobre o tempo para ler e se atualizar: “Para ler livros é necessário estar parado e nós nunca paramos”. As cenas associadas a essas falas são de dar nó na garganta de qualquer coração de pedra.

Para finalizar quero trazer uma questão que envolve o meu campo de pesquisa e atuação que é a educação e o uso da tecnologia. A uma postagem do meu amigo José Carlos Antônio (@profjc) dono do blog Professor Digital (abandonado as moscas desde 2015, né amigo) intitulada Uso pedagógico do giz (do giz???). Na postagem ele escreve assim:

Antes de qualquer coisa é bom lembrar que esse artigo está sendo publicado em um blog que trata do uso pedagógico das TICs e que uma das TICs mais antigas e mais bem conhecidas dos professores é justamente o “giz”. A combinação giz + lousa ainda é o instrumento tecnológico de maior uso no país e continuará a sê-lo por um loooooongo tempo.”

Captura de tela de 2017-12-26 21-47-28

Agora me diz qual de vocês professores da velha guarda pensou assim? Qual já olhou o bom e velho poeirento giz como uma ferramenta tecnológica? Nunca, né? Então #recomendo mesmo a leitura da postagem e uma reflexão sobre o que é tecnologia moderna. Lembre-se que a máquina de escrever já foi a invenção do século e depois delas as impressoras matriciais, as jato de tinta e agora a “modinha” da vez são as impressoras 3D. Viu como a modernidade está ligado a temporalidade da invenção?

O outro texto que eu quero trazer é o “Do Quadro-Negro à Lousa Digital: A História de um Dispositivo Escolar” da Maria Helena Camara Bastos. Ela faz e traz uma analise da evolução histórica e educacional, do quadro-negro até a lousa digital. Ela coloca assim descrito no resumo do artigo:

Analisa a história do quadro-negro e as transformações operadas nesse dispositivo escolar, entendido, ao mesmo tempo, como uma “técnica de poder e um procedimento de saber”. Pesquisas na área de história da educação têm ressaltado arquitetura escolar, o espaço e o tempo escolar, sem deter-se sobre o significado do uso de certos objetos e as práticas ligadas a eles. Nessa perspectiva, o mobiliário escolar refletiria a pedagogia, na qual o quadro-negro o ocupa especial centralidade. Pode-se afirmar que a centralidade pedagógica do e no quadro-negro resulta da ausência de manuais escolares e de outros recursos visuais para a aprendizagem, e da centralidade do processo pedagógico na figura do professor. O quadro-negro/verde/digital,como suporte das experiências cognitivas e estéticas da vida escolar, possibilita reconstruir a memória de uma prática educativa arraigada no cotidiano, na perspectiva de uma história das práticas escolares.

Bem aqui nesse espaço é assim: começa com um filme e termina com um artigo acadêmico para refletirmos sobre prática, aprendizagem, cultura, história, sociedade, modernidade, arquitetura escolar, tecnologia e o principal: sobre professores.

Veja o filme, leia os links e deixa seu comentário ai embaixo. Não fique avexado que aqui todo mundo pode falar e o dono adora conversar. É só se chegar…

Robson Freire

Um comentário sobre “Discutindo o uso do quadro-negro à lousa digital com o filme “O Quadro Negro – Takhté siah (2000)

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