A Praça é Nossa, Literalmente

Olá amigxs

Durante muito tempo havia um espaço perto da minha casa, que era quase que uma mata de restinga, habitada por corujas, gambás, cobras e pássaros, cheia de mato, cortado por um rio/valão no meio (que depois descobri ser de água doce limpa) e cheio de lixo. Um espaço completamente abandonado e perigoso. Eu sempre andava por lá com a minha cachorrinha Jujuba e não fazia a mínima ideia de que aquele espaço era um espaço público. Sim, aquele lugar chechelento cheio de mato era um espaço público!!!

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Aqui no Brasil vamos encontrar diversas situações muito parecidas de abandono e vandalização dos espaços públicos. Não é incomum em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Recife, Porto Alegre e em outras capitais e municípios desse imenso espaço territorial,  encontrar praças, parques e ruas em situação de descuido, que vão desde a não realização de poda e de corte das arvores e matos feitas com a devida frequência, a falta de iluminação ou a simples troca de lâmpadas queimadas; calçadas quebradas, dando o aspecto de abandonado e imediatamente, que contribuem para aquela sensação de total insegurança no local. Existe uma teoria chamada a “Teoria das Janelas Quebradas” criada por James Q. Wilson e George L. Kelling, e um livro chamado Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities de George L. Kelling e Catherine Coles é um livro de criminologia e sociologia urbana publicado em 1996, sobre crime e estratégias para o conter ou eliminar dos ambientes urbanos. O livro é baseado num artigo com o título “Broken Windows” de James Q. Wilson e George L. Kelling, que surgiu em março de 1982 no The Atlantic Monthly, nele os autores falam sobre a estratégia de resultado para prevenir o vandalismo, resolvendo os problemas quando ainda são pequenos, de forma que a manutenção dos espaços, seja um evento frequente. Aqui tem como se desenvolveu a pesquisa feita e o experimento realizado pela Universidade de Stanford (Estados Unidos). #recomendo dar uma lida, pois é muito interessante.

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Não sei se foi baseado em alguma teoria cientifica que moveu o projeto do parque ou se foi simplesmente o capital usando o poder público para atuar a seu favor na valorização do espaço. O que eu sei é que ali aconteceu uma transformação. Uma verdadeira transformação.

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Foi aí então que o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, colocou em prática o projeto do Parque Linear Parayba. Ali naquele espaço, que era antes abandonado, ocorreu uma grande transformação urbana que eu pude presenciar quase que passo a passo. Pude acompanhar durante as minhas caminhadas a mudança física do espaço e o mais impressionante era a transformação nas pessoas. Eu vi, com esses olhos que a Terra há de comer, a mudança nas pessoas que assim como eu, andavam por ali.

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Sabe o que foi mais impressionante ainda? Foi como as pessoas iam ocupando os espaços antes mesmo deles estarem prontos. A cada trecho de calçamento e da ciclovia as pessoas iam se apropriando de cada centímetro feito. A alegria das pessoas era uma coisa contagiante. Eles paravam e ficavam conversando sobre como ia ficar, como aquela ação valorizaria o imóvel delas, como estava ficando bom, etc… eram pais com filhos, senhoras e jovens andando naquele espaço que ainda nem estava pronto, mas que todos já e sentiam um pouco donos. Foi impressionante a mudança.

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Depois de inaugurada inciou-se uma verdadeira ocupação daquele espaço. Bicicletas, patins, patinetes, skates, carrinhos de bebês, corredores profissionais em treinamento, gente simples querendo se manter em forma e saudável, crianças, pets que disputam o Parcão, babás, avós e avôs se exercitando durante o dia todo estavam ali disputando cada centímetro  daquele espaço que agora era deles. Ai junto com eles meio o moço do picolé, da tapioca, da água de cocô, do espetinho, da bala, do pula pula, das bicicletas e triciclos de aluguel, dos adestradores de animais, de personal trainer de pracinha, os Food Trucks (parece praga de gafanhoto moderna) enfim uma imensa parte de pessoas que vem buscar seu sustento onde tem gente aglomerada. Só que junto deles veio os malandros que roubam celulares e dinheiro das pessoas que por ali transitam. O poder público é muito fraco nesse sentido, pois ainda não encontrou uma solução definitiva para esse problema que ainda persiste.

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Agora o que eu quero falar é sobre a segunda fase de ocupação desses espaços: a ocupação cultural. Já começam a aparecer iniciativas de ocupação cultural bem legais no parque. A primeira foi a apresentação de um coral (não sei se ligado a alguma igreja/culto religioso), depois um passeio ciclístico, teve uma atividade promovida pela associação de moradores de plantio de mudas e uma atividade que foi na minha opinião a mais legal de todas, que foi a criação do espaço de Pé de Livro. Um poeta local que ainda não consegui conhecer está espalhando livros pendurados nas árvores e bancos de um espaço da praça. Qualquer pessoa pode pegar um livro e levar consigo. Alguns devolvem e outros não, mas sempre aparece mais livros ali naqueles pés de árvores, opa, de livros. Havia um sem teto sentado no chão com seu cachorro lendo um livro e eu perguntei a ele se ele havia gostado e ele disse que sim. Disse que levava o livro escolhido e quando terminava a leitura ele trazia de volta e pendurava na árvore novamente. Vocês não fazem ideia da força que eu fiz para não chorar. A ideia da leitura como uma forma de esperança, de sonhar ou se transportar para um lugar só seu que está ali nos livros para libertar (no local tem um cartaz que está escrito “A Leitura Liberta”) aquele sujeito que tinha uma mochila, uma bolsa de pano, um cachorro e todas as mazelas que a vida impôs a ele. Eu queria dar um abraço nele, mas me contive e só tirei as fotos do local

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Tem um monte de teóricos e pesquisadores que trabalham com a ocupação dos espaços públicos, que vão de Mílton Santos, Roberto DaMatta, David Harvey, Jürgen Habermas, José Manuel Ressano Garcia Lamas, Rui Moreira, Antonio Gramsci, Cornélia Eckert e outros que podem contribuir para o entendimento acadêmico sobre a ocupação do espaço público em questão, eu uso eles como referencia e mais dois elementos importantes para entender essa ocupação cultural: Meu coração e minha paixão pelos livros.

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Quero aqui fazer um pedido aos empresários locais que gostariam de ter suas marcas associadas a uma iniciativa bem legal. Traga seus livros dentro de sacolas com suas marcas e pendure-as nas árvores do parque.

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Aqui estão alguns links que podem aumentar o seu conhecimento sobre o temaocupação de espaços urbanos“:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_das_Janelas_Partidas

http://soulurbanismo.com.br/importancia-da-manutencao-dos-espacos-publicos/

https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/pensamentoplural/article/view/3179/2717

http://www.ufrgs.br/propur/teses_dissertacoes/Doris_Baldissera.pdf

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/10926/8628

http://www.scielo.br/pdf/sant/v4n1/2238-3875-sant-04-01-0055.pdf

Abraços

Robson Freire

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