Seu conhecimento acadêmico chega na perifa? Quem souber a resposta que se manifeste agora ou se cale para sempre.

Olá amigxs

Eu vi uma foto no Instagram do Sergio Telles que me fez pensar… Nessa foto tinha uma frase que fez um reboliço tremendo nessa cachola velha. Vejam a foto abaixo:

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Uma pergunta simples e direta, mas que tem tantas implicações do porque que merece uma reflexão sobre isso. A distância que separa a realidade das periferias desse país não são apenas educacionais ou de ciência, mas aqui falamos de uma distância completa, quase galática, das coisas mais básicas para que um ser humano viva dignamente. Tudo é difícil na periferia: ônibus, metrô, atendimento básico de saúde/hospitais, oferta de emprego (aqui se coloca o foco na qualidade da especifidade da mão de obra, na oferta e do salário melhor/maior), do saneamento básico, de mobilidade urbana, enfim se formos listar tudo vai virar textão.

Mas vamos falar do que eu conheço e vivi: Educação. A universidade e o pensamento científico está ali presente cotidianamente nas salas de aula, pois hoje a grande maioria dos professores da educação básica fazem uma formação/graduação acadêmica (aqui não se vai discutir a qualidade dos cursos, mas que se registre que esse é um elemento diferenciador também do porque da frase em questão). Querendo ou não saímos das universidades/faculdades com um conhecimento científico básico depois da formação. Nos cursos de licenciatura e de pedagogia aprendemos metodologia e prática de ensino nas matérias de práticas e estágios, os professores, em sua grande maioria mestres ou doutores nas suas áreas, ensinam, mostram, corrigem e alguns deles inspiram os alunos por conta de sua conduta profissional de uma forma arrebatadora que tal forma que nos fazem queremos se espelhar neles.

Mas o que acontece depois que saímos das graduação, que não conseguimos colocar em prática aquela energia, forma científica em prática? Aqui não falo da nossa atuação em sala de aula, mas de levar todo aquele conhecimento científico das universidades para as escolas, principalmente as mais carentes? Existe um vasto conhecimento científico disponível e esse conhecimento não chega em quem mais precisa dele. O que pode ser feito? Existem especifidades das disciplinas que são mais difíceis de se levar esse conhecimento cotidianamente, mas não impossível a ponto de criar um abismo quase intransponível no futuro.

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No livro A divisão do trabalho na escola: aspectos da função docente e da relação família-escola da Catia Corrêa Michalovicz, parte do pressuposto de que a divisão dos papéis educativos entre família e escola encontra-se atualmente embaralhada. Que os papéis estão se misturando e que um lado, o nosso, está ficando sobrecarregado e por isso não temos tempo para fazer ou pelo menos tentar um fazer diferente. Em uma passagem do livro está descrito que “De certa forma, parece que o professor tem assumido diferentes papéis especializados em seu cotidiano docente, realizando tarefas supostamente da orientação ou supervisão escolar e de outros profissionais da escola (sala de informática, biblioteca, preenchimento de documentos). Isso é decorrente da sobreposição de funções no âmbito escolar, como também deriva das mudanças na relação entre família e escola (fruto das mudanças na escola e, também, nas famílias contemporâneas). O rol dos deveres e tarefas comumente associados a pais, por um lado, e a professores, pelo outro, também já não parece tão nítido quanto o foi no passado.”

Isso está maravilhosamente descrito em um dos depoimentos do livro, que constituem um dos pilares dessa questão:

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Como vocês podem ver esse quadro começa a ficar um pouco mais claro. Esse ponto em que o professor fica sobrecarregado com tarefas que não são pertinentes a tarefa de ensinar, já é um bom indicador que pode contribuir para esse problemas. Mas quer ver outra ponta dessa história? O aluno da periferia não vê a escola e o conhecimento científico como elemento fundamental na sua vida.

criticismo

Quer um exemplo? Então siga a minha linha de raciocínio: Por que um jovem da periferia, e outros também, não vê a universidade como uma opção de futuro? Tirando todos os porquês sociais e econômicos (aqui toda a crueldade do capital fica evidenciada, pois ele precisa de mão de obra barata e explorável) que afetam essa gama de pessoas, porque eles não veem a universidade como uma forma de emponderamento pessoal e intelectual acessível a ele, pois ele/s acha/m que aquela realidade não pode fazer parte da vida dele. É meio como uma coisa maior em que ele não cabe. Mas por que ele acha que ele não cabe nesse espaço? Simples, pois esse espaço deveria desde cedo estar presente na sua formação. Quando fazemos um experimento em sala de aula, por mais simples que seja ele, nunca fazemos a referência de aquilo foi conseguido/descoberto numa universidade/faculdade ou centro de pesquisa.

Outro fator é o que descreve Victor Vincent Valla (1996) nesse textoA construção desigual do conhecimento e o controle social dos serviços públicos de educação e saúde no Rio de Janeiro” em que afirma que a nossa dificuldade de compreender o que os membros das chamadas classes subalternas estão nos dizendo, está relacionado mais com nossa postura do que com questões técnicas como, por exemplo, linguísticas. Refere-se à dificuldade, de alguns segmentos, em aceitar que as pessoas “humildes, pobres, moradoras da periferia” são capazes de produzir conhecimento, são capazes de organizar e sistematizar pensamentos sobre a sociedade, e dessa forma, fazer uma interpretação que contribui para a avaliação que nós fazemos da mesma sociedade. Ou seja uma exclusão intelectual de classe. Isso fica bem claro nesse trecho do texto:

“Se, de um lado, os representantes de or­ganizações populares vinham buscando informações que não possuíam, por sua vez, os profissionais demonstravam uma preo­cupação semelhante. Na realidade, suas formações universitárias revelam lacunas justamente nas áreas de conhecimento que se relacionam com os problemas agudos da população trabalhadora (problemas de aprendizagem de crianças po­pulares, vi­gilância epidemiológica e sani­tária, saneamento básico, por exemplo). Neste sentido, a ótica elitista dos currí­culos universitários faz com que assuntos tratados nas universidades frequentemente passem ao largo de questões de educação e saúde ligadas às necessidades da popu­lação.” (Valla, 1996)

O distanciamento da universidade das escolas e vice versa, um currículo que não entende essas pessoas e mede todos da mesma forma, sob o mesmo olhar elitista, dogmático que tem um ideal de aluno capaz de só poder fazer ciência se estiver dentro desse padrão normativo das instituições de ensino superior. Tudo contribuiu para que o conhecimento acadêmico não esteja presente nas periferias e rincões desse imenso país.

filosofia

Entende o que eu falo? Não? Então deixa eu explicar diferente. Iniciação científica não é só coisa de gente grande. A busca da construção de uma visão ampla e científica da realidade, que é capaz de reconhecer o contexto sociocultural dos alunos, incentivar a cidadania, a criatividade e a criticidade, visando os benefícios da pesquisa científica na diminuição dos impactos ambientais, na qualidade de vida, nas relações econômicas e na tecnologia, que permita a esses alunos/pessoas experimentar sensações e se questionar sobre os significados das ações educacionais, das ações sociais e principalmente o seu mundo pessoal. Para esses alunos, que são desafiados a agregar conhecimento científico e artístico as suas experiências de vida, que possa levar eles a se questionar e romper com padrões sociais, econômicos, culturais e estéticos estabelecidos de forma tão profunda que cause uma revolução, que ele possa ser capaz de mudar o seu próprio destino e do país.

metodo cientifico iconografico

Enquanto não tivermos entendimento de que não se muda um país sem conhecimento científico, que proporcione tecnologia de ponta, conhecimento agregado e como pilar da educação, nós não vamos avançar. Enquanto houver distinção entre espaços sociais e classes estaremos disputando, à força e sangue, cada pedaço/espaço dessa corda. Enquanto houver resistência ao emponderamento das universidades, das escolas técnicas e de toda a malha educacional estaremos fadados a continuar a ser um país coadjuvante no cenário mundial. Pra ilustrar isso deixo aqui uma passagem brilhante do grande mestre Paulo Freire:

“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica.”

Bem esse tema precisa ser bem mais pensado, debatido e principalmente por nós que vemos na educação e principalmente na universidade como elemento de engrandecimento pessoal, intelectual, social e econômico capaz de transformar o mundo.

Abraços

Robson Freire

Obs.: Quem quiser saber mais sobre educação popular e outros temas tratados aqui no texto procure por essas referências teóricas: Azibeiro 2003, Barbosa 2008, Brandão 1984, Gadotti 1991, Paulo Freire 1986/1987, Nogueira Freire 1995/2002, Xavier 2003, Azevedo 1976, Neto 2004, Beisegel 1992, Paiva 1983, Kant 2011, Sacristàn 1996/2001, Veiga-Neto 1995, Moreira 1994/1998, Cordiolli 2003, Michalovicz 2017, Andrey 2012, Valla 1996, Jason Mafra de Universitá 2012

 

2 comentários sobre “Seu conhecimento acadêmico chega na perifa? Quem souber a resposta que se manifeste agora ou se cale para sempre.

  1. profjc disse:

    Oi Robson,

    Vou tentar falar resumidamente do assunto, embora seja um assunto apaixonante.
    Vi vários vieses no texto que talvez consiga condensar em três pontos principais: 1 – conhecimentos acadêmicos; 2 – papel do professor e 3 – realidade do aluno.

    1 – a academia, a formação acadêmica, o ensino superior de maneira geral, sempre andou descolado da realidade da escola, dos professores e dos alunos. A única verdadeira contribuição que acho que a universidade trás para o ensino básico é a imposição do currículo, mas não tenho certeza se isso é bom e nem que seja todo mal;

    2 – o papel exigido do professor atual é muito distinto do papel do professor de três décadas atrás, embora grande parte dos professores ainda cumpram apenas o papel que seus professores cumpriam a três décadas. Também é difícil dizer até que ponto o que se exige do professor hoje em dia faz sentido ou não quando se olha para o modelo de educação institucional. A estrutura da escola (física, pedagógica e operacional) é a mesma de três décadas; como pretender um professor “moderno” para uma escola “antiga”, e;

    3 – a realidade do aluno, principalmente nas periferias, essa não mudou muito em relação às classes mais pobres e excluídas de 30 anos atrás. Antes os alunos, pais dos alunos atuais, eram abandonados e excluídos do sistema de ensino; hoje seus filhos são abandonado e excluídos do sistema de ensino da mesma forma, com a única diferença de que agora continuam frequentando a escola, enquanto seus país eram obrigados a deixarem a vaga para outro.

    Então o que vejo é que as mudanças não são estruturais, nem na escola nem na sociedade, mas apenas “estéticas”. Parece que hoje temos uma sensibilidade maior para perceber problemas que antes não víamos, mas isso não quer dizer que consigamos, ou mesmo que queiramos, resolver esses problemas (ou mesmo admitir que possam ser resolvidos).

    Casos pontuais bem sucedidos mostram que é possível educar, “libertar” e transformar quando uma conjunção de fatores propiciam isso, mas casos mal sucedidos mostram o contrário, que continuamos excluindo, abandonando e aumentando o abismo o abismo entre as classes sociais altas e baixas. Qualquer um dos dois extremos existe, mas nenhum representa uma tendência; a tendência parece ser a da persistência do modelo de escola e do modelo de tentativas pontuais que se pretende que possam ser generalizadas (um “mito da transformação”, um mito estético, uma crença de que, não mudando a essência do animal, pode-se domesticá-lo). Nesse sentido ainda estamos naquela fase que Freire aponta como sendo aquela em o dominado e do opressor não sabem bem o que são nem porque são como são.

    Parei por aqui para não fazer um comentário maior que a própria postagem, mas ao abordar temas como esse me pergunto se não deveríamos tirar do baú uma daquelas ideias antigas e recorrentes (que todos nós já tivemos) de criar um canal de debates em tempo real… Me animo, e já desanimo… Sou a cara de quem não sabe muito bem para que lado dar o próximo passo, mas que entende que é preciso continuar caminhando.

    • Robson Freire disse:

      Olá José Carlos Antônio

      Primeiramente muito obrigado pela visita e muito, mais muito mesmo pelo MARAVILHOSO comentário. Eu gosto muito de quando podemos debater sempre após uma provocação, seja qual ela for ou em que ambiente for (eu prefiro nos blogs), mas a ideia do canal de debates online é fantástica, mas as pessoas hoje em dia gastam muito mais energia curtindo fotos, stalkeando a vida alheia, de fazer comentários tão rasos que serão incapazes de molhar a sola do pé de uma formiga tipo arrasou, lacrou, é isso aí amiga, linda e por aí vai ou tirando zilhões de fotos até encontrar a foto perfeita para as redes sociais que vão captar milhões de likes e views, mas são incapazes de comentar ou participar de ações assim. Já comentei por aí, que uma postagem minha no Twitter tem pelo menos 3 mil views é uma postagem como essa não passará de 50 e ZERO comentários (sim estou rabugento). Bem concordo contigo na colocação do seu comentário de que há um real distanciamento de formação das universidades da realidade das escolas, de currículos que não alcançam a realidade daquele segmento, da deficiência profissional atribuída ao professor é injusta, pois a grande maioria faz o melhor que pode dentro das condições de trabalho oferecidas (quase sempre precárias e com salários que mal dão para cumprir os compromissos financeiros desse profissional) e a realidade das periferias que como maravilhosamente você colocou que são órfãos de país vivos largados dentro da escola na esperança de que aprendam alguma coisa que possa servir no futuro (quase sempre sem sucesso algum nesse sentido). Talvez a única garantia sejam de que eles serão aquela força de trabalho descartável que o capital precisa em tempos em tempos de acordo com os ciclos econômicos favoráveis ou desfavoráveis. Em relação a questão das mudanças estruturais está mais que bem representada na frase “finjo que fui mas não fui mais acabei fondo”. Eu acredito em mudança ou vitórias e que qualquer vitória é um sinal de que é possível mudar. Exemplos positivos são sempre inspiração para o novo, mesmo que os muitos fracassos possam desanimar a esperança do melhor, do novo e de que é possível sim levar conhecimento acadêmico para as periferias (sim sou um velho sonhador).
      Querido amigo é tão bom poder debater contigo. Apareça mais vezes e venha jogar conversa fora.

      Um grande abraço e mais uma vez muitíssimo obrigado pelo generoso comentário

      Robson Freire

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