Das modernidades: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”

Olá amigxs

Uma das coisas que mais adoro fazer são as incursões antropológicas nos redutos populares. Adoro me perder por entre as barracas da feiras livre, pelas feiras de artesanato e de escambo, pelos sebos de livros e discos e pelos galpões dos mercados populares. São costumes populares em que cada um deles, tem um ritual próprio que são memórias vivas das tradições populares, às vezes tão antigas que o povo que ali está nem se lembra mais como tudo começou.

E quero inicialmente falar aqui dos mercados populares. Nós países que visitei e morei, haviam mercados populares famosos como Notting Hill e Borough Market em Londres e o Mercado do Bolhão no Porto que são cultuados e visitados por um monte de turistas durante o ano todo, mas que aqui no Brasil esses mercados são na maioria das vezes frequentados por pessoas simples e as vezes muitoooooooooo humildes, pois os preços muito pequenos ali praticados e a qualidade infinitamente superior fazem daquele espaço um lugar muito movimentado por pessoas comuns e não por turistas.

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Mercado do Bolhão

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Mercado do Bolhão

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Mercado do Bolhão

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Borough Market

 

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O Ceasa e a Cobal em Botafogo, hoje um reduto cult/descolado, o Mercado de peixe São Sebastião em Niterói e o da Praça XV são ligares que conheço desde muito pequeno. Quando vim morar aqui em João Pessoa na Paraíba, eu me deparei com inúmeros lugares similares, mas muito mais cheios de sabores, aromas, texturas e histórias. Um desses lugares é o Mercado Central de João Pessoa que foi inaugurado em 1949.

Ali eu encontro pimenta rosa, pimenta do reino branca e preta fresquinha, cominho e quase todo tipo de temperos e ervas. As frutas são lindas, mais tão lindas que o cheiro doce faz você querer comê-las ali mesmo. Frutas locais são as que eu mais olho, experimento e me admiro com o sabor delas. Tem o galpão dos laticínios e embutidos que é maravilhoso, nele encontramos de coalho, queijo manteiga, queijo meia cura, queijo curado e uma quantidade de queijo de cabra impressionante: fresco, curado, defumado, temperado tão divinos que eu fico pensando em como utilizar eles em alguma receita nova. Os embutidos frescos e defumados são outro caso a parte, pois além da enorme variedade delas ainda encontramos carne de charque e de sol que deixam qualquer um doido. No galpão das frutas, legumes e verduras é uma uma explosão de cores e cheios que não há quem fique encantado, com aquilo tudo.

No galpão do açougue/aviário/peixaria é uma loucura. Coisas que você nunca imaginou ser possível alguém comer, tem lá para vender. Miúdos de todos tipos, cortes de carnes mil, perus e patos vivos, cabrito/bode, porco, carnes vermelhas, ovos e uma infinidade de coisas fresquinhas que impressiona.

Agora os dois últimos lugares são muito legais o pessoal da goma e massa de tapioca (sim, mané, tem diferença: massa é para fazer bolo e biju, e goma é pra fazer tapioca), tapioca granulada/grossa que é pra fazer o cuscuz doce (ou baiano como o pessoal do Rio de Janeiro conhece), manteiga de garrafa, creme azedo, milho de raiz ou flocão pra fazer cuscuz, farinha de mandioca de todo espessura e cor, dos bolos feitos ali mesmo (casa de bolo só virou modinha agora no sul/sudeste, mas já existia aqui desde que a primeira macaxeira brotou no sertão) como o bolo cremoso de milho, bolo de rolo (bolo de rolo não é rocambole), bolo baêta, bolo de macaxeira, bolo de tapioca (tem dois tipos um que vai no forno em banho maria e um que não vai no forno), bolo queijadinha, bolo de fubá, bolo de todo tipo e todo tipo de feijão e de cereais. As castanhas e os doces são divinos e o seu Arnaldo das panelas e suas histórias sobre o lugar que dá para passar o dia aqui ouvindo ele falar.

Ele nasceu ali naqueles boxes (o lugar do primeiro box da família dele no mercado central era outro), quando digo nasceu é por que ele nasceu mesmo no box que seus pais trabalhavam. Ele vende panelas e utensílios de cozinha de alumínio fino, batido, panela de ferro, coisas de madeira… Enfim é para cada coisa que você vai comprar tem uma história sobre aquilo.

Mas eu estava pensando em como o tempo apaga os saberes milenares, pois não há a devida perpetuação desse conhecimento fantástico. A técnica da forja do alumínio batido do seu Arnaldo vai morrer com ele, pois os filhos e netos não querem saber daquilo. E assim é a história da minha avó Dona Teresa que fazia bordados lindíssimos e tão delicados, na máquina e com bilros, que ela aprendeu com a mãe, que aprendeu com a avó dela, que aprendeu com a bisavó dela e isso se perdeu pois nenhum de nós quis ou deu o valor que aquele conhecimento merecia. E isso está se repetindo mundo afora com profissões antigas que ainda resistem aos processos automatizados com o tio da ferradura do cavalo, do tio que faz corda artesanal e as gaiolas, os alfaiates, as costureiras, os ascensorista, os sapateiro, os engraxate, os ourives, as rendeiras, os relojoeiro, dos ainda poucos tipógrafos, e de tantas outras profissões que foram, ou serão,  trocados ou substituídos pela inevitável modernidade que a tudo engole vorazmente como o leiteiro, o lambe lambe ou fotografo de praça, o datilógrafo (quem fez curso de datilografia levanta a mão), projetista de cinema, lanterninha, operador de telex e telefonista.

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Estava pesquisando para escrever esse texto e me deparei com um estudo de um neurocientista que falava da importância da perpetuação da escrita como elemento de resistência cognitiva, neurológica e principalmente de perpetuação de um conhecimento que foi determinante na nossa evolução/sociedade/individuo/transmissão de conhecimento/histórico. Nesse artigo que publicado recentemente no The Journal of Learning Disabilities mostrou que cientistas da Noruega constataram que pessoas que escrevem alguma informação à mão terão uma lembrança melhor da frase do que pessoas que apenas a digitaram. A explicação mais simples é que a escrita manual cobra mais esforço e concentração do cérebro, o que facilita o processo de aprendizagem e consequentemente de memorização.

O mesmo resultado foi constatado pela professora Larin James, no centro de Ciências Psicológicas e do Cérebro na Universidade de Indiana. James realizou diversos estudos do tipo com crianças e constatou que, ao escrever à mão, determinados padrões e regiões do cérebro estavam mais ativos do que apenas com a leitura de frases e textos ou digitação feita através de um teclado de computador, por exemplo.  Ele afirma que “As letras que elas produzem são muito bagunçadas e variáveis, e isso na verdade é bom para o modo como as crianças aprendem as coisas. Esse parece ser um dos grandes benefícios da escrita à mão”.

Ela conclui dizendo que os benefícios de escrever à mão são inúmeros, ainda que a praticidade da digitação seja uma tentação ao dia a dia corrido do século XXI. Mesmo assim, se você conseguir incluir pequenos hábitos na sua rotina, como manter uma agenda onde escreve as tarefas diárias, ou ainda carregar consigo um caderninho para anotar algo sempre que precisar ao invés de recorrer ao celular, já é um passo para praticar mais o cérebro, ajudando no seu desenvolvimento..

Quem me vê escrevendo/falando disso pode pensar que sou uma pessoa contra a tecnologia e contra a modernidade, que sou um daqueles ranzinzas de carteirinha, mas fique você sabendo que não sou, meu caro. Não sou daqueles que acreditam na frase “Quem troca o velho pelo novo sabe o que deixa, mas não o que irá encontrar?“, pois eu respiro tecnologia, penso tecnologia e trabalho com tecnologia, penso em como utilizar a tecnologia no meu campo de estudo e trabalho, mas tenho uma preocupação de como perpetuar/conservar/guardar todo tipo de conhecimento, que alguns podem achar obsoletos, mas que historicamente tiveram seu valor dentro daquele contexto em que ele foi utilizado.

O impacto das novas tecnologias na sociedade expõe as principais problemáticas envolvidas da Sociedade da Informação e da Sociedade Digital, como a ascensão de um modelo de sociedade tecnológica onde a importância crescente de seus dispositivos influencia diretamente a construção da cultura, tal como vivenciamos hoje. E que as transformações sociais estão diretamente ligadas às transformações tecnológicas da qual a sociedade se apropria para se desenvolver e se manter, descartando o “velho” pelo “novo”.

Moran tem um texto, intitulado “Mudar a Forma de Ensinar e de Aprender: Transformar as aulas em pesquisa e comunicação presencial-virtual”, que tem uma passagem que eu gosto que diz assim:  “Faremos com as tecnologias mais avançadas o mesmo que fazemos conosco, com os outros, com a vida. Se somos pessoas abertas, as utilizaremos para comunicar-nos mais, para interagir melhor. Se somos pessoas fechadas, desconfiadas, utilizaremos as tecnologias de forma defensiva, superficial. Se somos pessoas autoritárias, utilizaremos as tecnologias para controlar, para aumentar o nosso poder. O poder de interação não está fundamentalmente nas tecnologias, mas nas nossas mentes.

Quero que um dia seja possível resgatar todo esse conhecimento que foi perdido para que possamos quem sabe um dia mostrar as pessoas como as coisas eram feitas e porque estávamos naquele nível tecnológico da humanidade e o porque chegamos até aqui, mas que estejamos abertos ao novo e principalmente de como utilizá-lo para melhorar a vida de todos.

Abraços

Robson Freire

 

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