Que revolução é necessária para uma Educação Revolucionária?

Olá amigxs

Há bastante tempo eu venho querendo falar sobre educação revolucionária e todas as implicações que um tipo de educação faria assim em qualquer país em que ela fosse aplicada. Primeiro vamos pensar em que contexto isso se daria. Hoje no país temos indicadores educacionais internacionais muito ruins (não houve melhora significativa nesses indicadores apesar de todo investimento feito na Educação. Somos um dos países que mais investe na % do PIB na educação) nas avaliações tipo PISA, além disso temos um país extremante desigual, violento e com pessoas completamente analfabetas. Melhoramos um pouco nos governos de esquerda que propuseram uma politica para educação como um todo, mas foi no ensino superior que se deu um grande salto. Foi na ampliação da rede de ensino superior/técnico superior (REUNI) e no acesso ao ensino superior que ocorreu um grande avanço, quase uma revolução, não no sentido que eu pretendo falar, mas foi no acesso ao ensino superior é que essa mudança foi mais significativa.

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Para ilustrar o que digo em relação ao desempenho internacional da educação brasileira, no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) de 2015/2016 (aqui todos os dados do PISA consolidados e analisados para download), que é elaborado pela OCDE, o país foi classificado nas posições 59ª em leitura, 65ª em matemática (entre os cinco piores) e 63ª em ciências (entre os oito piores), entre os 70 países avaliados pela pesquisa.

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Aqui no Caldeirão de Ideias falamos principalmente do uso da tecnologia na educação, mas tratamos qualquer outra ação ou recurso educacional, seja ele material ou pedagógico/teórico, o que tem proporcionado bons debates e algumas pistas do que, e como, fazer educação de um modo bastante produtivo. A inovação na educação quase sempre é material (computadores, tablets, notebooks, celulares, lousas digitais, impressoras 3D, etc) pincelada com alguma inovação pedagógica/teórica que reflete diretamente na pratica do professor em sala de aula. Estamos de acordo que toda essa parafernália tecnológica não será a solução, pois elas são apenas mais “UMA FERRAMENTA” que viabiliza/proporciona apenas um outro jeito de ensinar/aprender. As inovações pedagógicas na linha da Cultura/Movimento Maker, que o pessoal do SEED LAB (aqui dedico aos meus queridos Gláucia Brito, Egui Branco e Marlon Matheus e toda equipe do SEED LAB o sucesso disso por lá) do Paraná, está implantando com algum sucesso nas escolas públicas de lá. O que inviabiliza essa ação é o custo altíssimo para implantação em nível macro em um país continental como o nosso, e o ganho/impacto “revolucionário” dessa ação seria baixo diante de tantas demandas educacionais básicas (ler e escrever corretamente). O chamado ensino baseado em projetos, em que a divisão tradicional de matérias é substituída por temas multidisciplinares em que os alunos são protagonistas do processo de aprendizado talvez seja uma das melhores opções, mas esbarra no mais completo desconhecimento de muitos professores em trabalhar com essa metodologia.

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E não pense que o contexto de que um arquitetura escolar inovadora também resolveria a questão. Algumas ideias bem sucedidas como a Escola da Ponte, a rede de escolas sueca Vittra que se propôs a acabar com a sala de aula, onde o objetivo é incentivar a criatividade dos alunos, e argumentam que o campus educacional em qualquer lugar é bom para aprender. O projeto foi feito pelo escritório de arquitetura Rosan Bosch e ela mesmo afirma que a escola “é apenas mais uma ferramenta educacional” e que a eficacia disso depende de sabermos se os resultados serão bastante satisfatórios. Outro exemplo são as transformações arquitetônicas que a Finlândia está propondo um meio que um “adeus às paredes” das salas de aula e das escolas, e para isso as escolas finlandesas estão sofrendo uma grande reforma física, com base nos princípios do “open plan” (aqui vale destacar que a ideia do plano aberto não é totalmente nova, as primeiras escolas com esse modelo foram idealizadas nos anos 1960 e 70, como grandes salões separados por paredes finas e por cortinas) ou plano aberto.

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A busca é, essencialmente, por mais flexibilidade. As tradicionais salas fechadas estão se transformando em espaços multimodais, que se comunicam entre si por paredes transparentes e divisórias móveis. O mobiliário inclui sofás, pufes e bolas de pilates, bem diferentes da estrutura de carteiras escolares que conhecemos hoje. Não há uma divisão ou distinção clara entre os corredores e as salas de aula. O conceito de plano aberto não está restrito a inovação arquitetônica, mas também pedagógica, que num sentindo mais amplo do conceito, significa que não se trata apenas de um espaço aberto no sentido físico, e sim de um “estado mental”.

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A outra iniciativa interessante é a escola acadêmica de programação que se chama 42, que está localizada no Boulevard Bessières de Paris (eles abriram um filial na Califórnia também), no 17º distrito, limite entre a cidade e os subúrbios, bem ao lado do Liceu-Colégio Internacional Honoré de Balzac, o maior colégio público da capital francesa. Uma escola de programação que a partir do próprio nome já encarna uma mudança em relação à totalidade do sistema educacional francês ou, o que é a mesma coisa, ao conceito de formação que impera há pelo menos três séculos.

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Para começar, porque não exige nenhum título acadêmico aos seus alunos. E porque ela é gratuita. Mais de 50.000 mil alunos tentam uma vaga todos os anos. Mais 42? Por que 42? Esse segredo se descobre, como todo bom nerd, o porque do nome da escola: Ele é tirado do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. A 42 é – nessa série de rádio, romance e filme – a resposta absurda e confusa que dá um monumental supercomputador à “pergunta definitiva sobre a vida, o universo e tudo”. Até a calculadora do Google conhece essa referência.

 

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O lugar é super desolado e conectado. Logo na entrada um computador diz bom dia e o seu nome junto. O lugar é cheio de obras de arte urbana (tem um Bansky lá), esculturas, patinetes e skates, e computadores Apple por todo o lugar. Quem idealizou o projeto foi o Xavier Niel, coproprietário do Le Monde (e dos direitos de My Way de Frank Sinatra) e, além disso, incentivador do que será a maior incubadora do mundo, a também parisiense Station F. O modelo acadêmico foi concebido pelo próprio Niel e por Nicolas Sadirac, fundador e ex-diretor executivo da rede de escolas particulares de código Epitech.

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Eles criaram uma escola que qualquer um “nascido para o código” (o lema da escola) possa ter acesso, em permanente contato com o ambiente empresarial e um com um conceito pedagógico que faz da gamificação sua essência. E gamificação na veia mesmo. Não existem professores (saliente-se que o papel deles lá é mais de tutor/a ou mediador/a). Não há aulas. Não há lições ou livros de estudo. Esse é uma grande diferencial deles em relação a outras escolas como por exemplo a Epitech.  Dentro da proposta deles os professores e as lições não têm sentido hoje em dia, por isso todo o material está na Internet, e com isso eles querem que os alunos sejam capazes de procurá-los, classificá-los e filtrá-los para seu uso.

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Apesar de ser uma escola vanguardista de Paris, ela tem um elemento que faz com que  ela se pareca com outras universidades tecnológicas: a presença de poucas mulheres. As mulheres representam apenas 8% do corpo discente, e esse percentual é semelhante ao das mulheres que se candidatam às provas de ingresso. Segundo eles isso “é uma coisa cultural. A indústria dos videogames, com as personagens femininas que cria, tem muito a ver com isso” (bobagem, pois hoje em dia as gurias jogam tanto quanto os guris e o número delas nos cursos de engenharia e tecnológico vem crescendo exponencialmente). A mentalidade e o espírito divertido da escola fazem dela talvez algo mais atraente, mas em um setor, o do entretenimento eletrônico, em que as mulheres também foram sempre uma minoria muitas vezes esquecida. A 42 não tem quotas de qualquer espécie e se recusa a estabelecer um percentual mínimo de mulheres. AQUI tem uma reportagem que fala mais sobre ela.

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A verdade é que tudo que serve de modelo de comparação do que temos aqui com iniciativas experimentais lá de fora é/são numericamente desproporcionais. Quer entender o que estou falando? Alias o que é essa mania que as pessoas tem de querer comparar a educação na Finlândia (AQUI uma boa reportagem sobre a educação na Finlândia) com a educação do Brasil?

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Essa é uma das coisas que mais me deixam puto da vida. Comparar um país que tem 8.515.767,049 km² (5.º do mundo em extensão territorial), com um que tem 338.145 km² (65.º do mundo em extensão territorial), já soaria injusto, mas ai você compara o número de habitantes de cada um então é que fica mais pior, pois um tem 207.660.929 habitantes (6.º pais com mais habitantes do mundo) e o outro que tem 5.348.357 habitantes (111.º país com mais habitantes do mundo). Outra coisa é comparar um pais com um IDH, GINI e PIB per capita de um país pequeno e extremamente igualitário socialmente com o de um país carente, desigual e violento cheios de necessidades básicas urgentes (fome) a ser resolvida primeiro.

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Existem coisas que são primárias na educação, e uma dessas é a não existência de pessoas analfabetas em um país. Só para efeito de comparação o Brasil tem hoje ainda hoje 8,3% da população (ou 13 milhões de pessoas). Além disso, 17,8% dos brasileiros ainda eram classificados como analfabetos funcionais. Ai sempre aparece um pra dizer: Ahhh… mas na Finlândia não tem analfabetismo!!! Meu filho a Finlândia (338.145 km²) é menor que o estado de Goiás (340.086 km²) imagina se fosse fazer uma comparação com o estado da Amazônia que é muito maior (1.248.000 km²). Acabar com o analfabetismo num país pequeno e com poucas diferenças sociais é moleza. Quero ver acabar aqui onde, além do tamanho territorial, onde principalmente a miséria e a ignorância é considerado capital político e religioso, pois transforma essas pessoas em massa de manobra e por consequência em votos para eles se perpetuarem no poder por uma casta de políticos nacionais e falsos profetas religiosos.

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Mais vamos voltar a revolução, quando falo em revolução falo em rupturas profundas, tanto educacionais como sociais. Quando falo que a questão da violência só se resolve com a educação (aqui no seu sentido mais amplo), eu penso no livro Escola e democracia”, de Dermeval Saviani, que parte da confecção de um panorama das teorias da educação. Nesse livro Saviani fala em dois grandes grupos quando se propõem a tratar do problema da marginalidade/violência.

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O primeiro grupo (teorias não-críticas) entende a educação como um instrumento de equalização social e, portanto, de superação da marginalidade. Ela reforça os laços sociais, promove a coesão e garante a integração de todos os indivíduos no corpo social (é fundamentalmente educativa). Nesta perspectiva, a educação é autônoma. É nesse grupo que eu me incluo.

E no segundo grupo (teorias crítico-reprodutivistas) entende a educação como instrumento de discriminação social e, portanto, ela própria fator de marginalização. Essencialmente marcada pela divisão entre grupos e classes antagônicas (é fundamentalmente política). O grupo ou classe que detém a maior força é dominante por se apropriar dos resultados da produção social e produz necessariamente marginalização. Nesta perspectiva, a função básica da educação é a reprodução da sociedade. Nesse grupo está tudo que eu mais detesto como pensamento ideológico.

Quer saber porque eu detesto? Leia: “Uma das mais influentes é a teoria do sistema de ensino como violência simbólica, formulada por P. Bourdieu e J.-C. Passeron. “Sobre a base da força material e sob sua determinação, erige-se um sistema de relações de força simbólica cujo papel é reforçar, por dissimulação, as relações de força material. (…) Assim, à violência material (dominação econômica) exercida pelos grupos ou classes dominantes sobre os grupos ou classes dominados corresponde a violência simbólica (dominação cultural)” (p.16 e 17) .

Este sistema de dominação não está restrito à escola: inclui mídia, família, religião. Parece não haver muita saída: “Todos os esforços, ainda que oriundos dos grupos ou classes dominados, reverte sempre no reforço dos interesses dominantes” (Saviani, p.19). À luz da teoria da violência simbólica, conclui o autor, a classe dominante exerce um poder de tal modo absoluto que se torna inviável qualquer reação por parte da classe dominada. “A luta de classes resulta, pois, impossível” (id.)”. Entendeu porque eu detesto?

Mas o que é revolucionário na educação? Para Saviani uma pedagogia revolucionária, onde a educação passa a ser formulada a partir dos interesses das classes populares“. Onde (…) novos mecanismos de recomposição de hegemonia são acionados: os meios de comunicação de massa e as tecnologias de ensino” passam a construir a ideia de educação permanente, educação informal e até mesmo de destruição da escola. Vale aqui destacar a síntese dessa proposta que ele descreve no livro:

“Uma pedagogia articulada com os interesses populares valorizará, pois, a escola; não será indiferente ao que ocorre em seu interior; estará empenhada em que a escola funcione bem; portanto, estará interessada em métodos de ensino eficazes. Tais métodos situar-se-ão para além dos métodos tradicionais e novos, superando por incorporação as contribuições de uns e de outros.

Serão métodos que estimularão a atividade e iniciativa dos alunos sem abrir mão, porém, da iniciativa do professor; favorecerão o diálogo dos alunos entre si e com o professor, mas sem deixar de valorizar o diálogo com a cultura acumulada historicamente; levarão em conta os interesses dos alunos, os ritmos de aprendizagem e o desenvolvimento psicológico, mas sem perder de vista a sistematização lógica dos conhecimentos, sua ordenação e gradação para efeitos do processo de transmissão-assimilação dos conteúdos cognitivos. (Saviani, p.62)”

Em suma, a pedagogia revolucionária “não é outra coisa senão aquela pedagogia empenhada decididamente em colocar a educação a serviço da referida transformação das relações de produção.” Para o Saviani, o “pleno exercício da prática educativa” [a partir da mudança do paradigma da coerção à persuasão, conforme Gramsci e depois Freire] só é possível “no horizonte de possibilidades das condições atuais, mas que não chegou ainda a se concretizar”.

A “plenitude da educação como, no limite, a plenitude humana está condicionada à superação dos antagonismos sociais”.

Agora quando falo que somente a “educação liberta” eu lembro do livro “Educação como Prática da Liberdade” e quando falo em “educação revolucionária” eu lembro do livro “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. Esses livros são obras de referência para aqueles que, como eu, busca compreender as possibilidades radicais do processo pedagógico voltado para as classes populares. Aliás toda a obra de Paulo Freire trata disso: o homem não mais no mundo, mas com o mundo.

Tem tanta coisa do Paulo Freire para citar, dada a atualidade das ideias dele, que vai acabar ficando ainda maior esse texto. Aqui vou fazer uma citação e no vou deixar AQUI um das melhores avaliações sobre o livro Educação como Prática da Liberdadeque eu já li por essas bandas digitais.

Freire destaca no livro Pedagogia do Oprimido que um dos elementos básicos na mediação opressores-oprimidos é a prescrição, ou seja, a imposição da opção de uma consciência a outra. A prescrição não é ideologicamente determinada. A diferença é que, mais à direita, trata-se da prescrição com base no passado, no estado permanente e imutável das coisas. Já à esquerda, é a prescrição da antecipação da História. E segue daí o medo da liberdade:

“Os oprimidos, que introjetam a “sombra” dos opressores e seguem suas pautas, temem a liberdade, na medida em que esta, implicando a expulsão desta sombra, exigiria deles que “preenchessem” o “vazio” deixado pela expulsão com outro “conteúdo” – o de sua autonomia. O de sua responsabilidade, sem o que não seriam livres.

A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca. (…) Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem. Não é também a liberdade um ponto ideal, fora dos homens, ao qual inclusive se alienam. Não é uma ideia que se faça mito. É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos. “

Já no Educação como Prática da Liberdade, Freire destaca que o homem com “medo da liberdade” a teme “mesmo que fale dela”. Seu gosto é o das “fórmulas gerais, das prescrições, que ele segue como se fossem opções suas. É, no entanto, conduzido, massificado.

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Aí vamos tocando fogo nesses conceitos revolucionários e chegamos aos russos… Sim os russos estão chegando. Segundo a visão de Vigotsky, Luria e Leontiev, considerados como os artífices de uma educação revolucionária, a educação era um assunto central dentro do contexto histórico que eles viviam: um instrumento imprescindível para que a revolução soviética iniciada fosse passada para as gerações seguintes. Hoje em dia, os estudos soviéticos são considerados estudos de alto rigor científico e precursores de uma educação revolucionária. O primeiro problema que eles observaram na educação da sua época foi a pobreza da comunicação existente. Eles perceberam que os alunos eram sujeitos passivos na situação de aprendizado, uma consequência de que a comunicação era unidirecional, do professor para o aluno. A psicologia soviética veio para romper com isso, ela buscava uma educação construtivista. Nesse modelo, os alunos são quem constroem o conhecimento e são sujeitos ativos do aprendizado. Portanto, o modelo de comunicação unidirecional era incompatível. Para garantir que os alunos construíssem suas ideias, era necessário transformar a sala de aula em um espaço de debate. A comunicação deveria ocorrer livremente entre aluno-aluno e aluno-professor, com as duas partes dispostas a falar e a escutar.

Aqui faremos uma pequena pausa para fazer duas perguntas: Quantos professores, e alunos também, estão dispostos a escutar? Quais deles estão dispostos a transformar a sala de aula em um espaço de debate focado na aprendizagem?

Voltando ao tema em questão, sabemos que a função do professor nessa aula não seria comunicar seus conhecimentos magistrais. Neste modelo, sua meta seria guiar o debate entre os alunos para fomentar neles uma boa construção do aprendizado. Essa é uma tarefa altamente complexa. Porém, foi provado várias vezes que quando o aprendizado é ativo, a qualidade do ensino aumenta de maneira significativa.

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Aqui nos deparamos com uma das questões chaves dessa educação revolucionária: qual é o verdadeiro objetivo da educação? Antes de responder, alguns teóricos observaram a realidade e perceberam que o objetivo da educação estava longe de ser o desenvolvimento do potencial dos alunos. Eles concluíram que a missão da educação da sua época era transformar as pessoas em mão de obra para os cargos que o mercado solicitava. Ou seja, criar uma divisão do trabalho e direcionar a educação no sentido de que as pessoas que passassem por ela fossem capazes de preencher as vagas dessa divisão do trabalho. Hoje em dia, com algumas nuances e exceções, podemos observar no nosso sistema educacional a mesma meta. O objetivo nunca foi o pleno desenvolvimento intelectual do indivíduo.

Eles acreditavam que todos os indivíduos deveriam ter a chance de desenvolver seu máximo potencial intelectual. Isso sem se esquecer de que precisavam de trabalhadores para manter o funcionamento da sociedade. Por isso, eles acreditavam que o ideal era que os estudantes participassem diretamente na vida econômico-social, saindo periodicamente da escola para se dedicar ao trabalho necessário à manutenção da sociedade.

Atualmente, podemos observar que não existem muitas diferenças entre o sistema contra o qual esses psicólogos lutavam e o atual. Hoje vemos que na maioria das salas de aula a comunicação continua sendo unidirecional e estamos muito longe de tentar explorar a ZDI, elaborado por Vigotsky, de cada aluno. A educação revolucionária proposta por Vigotsky, Luria e Leontiev caiu no esquecimento. Mas por quê? Isso se deve ao fato de que o objetivo da educação ainda não é o desenvolvimento do potencial humano. Nosso sistema educacional busca produzir trabalhadores, assim como uma indústria produz qualquer outro tipo de produto.

A proposta educacional gramsciniana de “escola únitária” pressupõe uma reforma imediata, ou seja, não significa que sua criação deve se dar depois que o socialismo ou comunismo estiverem implementados. Isso não significa dizer que a educação mudaria a sociedade, mas que a implementação da proposta gramsciniana de escola está dialeticamente ligada à extinção do modelo de escola atual. O ponto central nos conceitos que Gramsci desenvolveu sobre a educação, está calcado na ideia de que o trabalho não pode ser dever de apenas alguns. Poucos não podem viver à custa do trabalho de muitos. Através do processo de trabalho o homem humaniza-se, portanto, todos os homens devem submeter-se ao trabalho. O processo educativo deve estar alicerçado nestes princípios. Portanto, para Gramsci, o processo de trabalho como princípio educativo imprescindível na formação de novos intelectuais orgânicos para a classe trabalhadora que, organizada, concretize o ideal de uma sociedade emancipadora, onde tanto o trabalho material quanto o trabalho imaterial absorva uma visão crítica da realidade, uma visão coerente e unitária, que leve em conta a racionalidade, a totalidade e a historicidade das relações sociais.

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É desta dimensão ontológica que Marx aponta o trabalho como um princípio educativo. Trata-se de um pressuposto ético-político de que todos os seres humanos são seres da natureza e, portanto, têm a necessidade de alimentar-se, proteger-se das intempéries e criar seus meios de vida. Socializar, desde a infância, o princípio de que a tarefa de prover a subsistência, pelo trabalho, é comum a todos os seres humanos, é fundamental para não criar indivíduos, ou grupos, que exploram e vivem do trabalho de outros. Na expressão de Antônio Gramsci, para não criar mamíferos de luxo.

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Geração Y ou Leite com Pera um exemplo perfeito de mamíferos de luxo.

Portanto, para Gramsci a “escola unitária” constitui-se numa proposta educacional voltada para a emancipação da classe trabalhadora. O compromisso político de Gramsci para com a superação da sociedade capitalista e implementação de um novo modelo de sociedade, fica claro a partir da sua concepção do processo de trabalho. Embora não defenda que uma educação “desinteressada” deva aguardar a superação da sociedade capitalista, a condição para sua efetiva implementação está condicionada à superação deste modelo de sociedade que sobrevive à custa da exploração do trabalho.

Então depois desse monte de coisas ditas, ficou o seguinte: Se quisermos realmente evoluir como sociedade, a educação é um fator essencial. E enquanto tivermos um modelo educacional que se preocupa somente com a necessidade do capital de criar mão de obra qualificada, e não com o desenvolvimento intelectual pleno de cada pessoa, seremos incapazes de progredir. Não conseguiremos a plenitude intelectual ou mesmo a liberdade no seu sentido mais amplo com esse modelo de educação/escola que hoje existe.

Mas o que podemos fazer para resolver esse grande problema? Essa é a pergunta que precisamos responder por meio do estudo científico da educação e da sociedade, e que estejamos dispostos a fazer rupturas tão profundas em todo o sistema (educacional, social, econômico) que dali surjam elementos para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Para isso precisamos de uma Revolução

“You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it’s evolution
Well, you know
We all want to change the world”

Revolution
The Beatles

Quando se fala dessas iniciativas/ações/projetos, os exemplos dados ai em cima na postagem, eu sempre penso que é muito fácil quando se tem dinheiro, 50 mil alunos inscritos para eu poder escolher apenas os melhores, os melhores computadores disponíveis do mercado, internet de altíssima velocidade, toda um estrutura arquitetônica pensada para aquele projeto, em ambientes climatizados, apoio médico e psicológico, comida orgânica disponível, arte e cultura ao alcance dos olhos e das mãos, famílias estruturadas, os melhores profissionais disponíveis no mercado para trabalhar e tocar o projeto intelectualmente, dai você escolhe a metodologia mais descolada, a modinha da vez (Movimento Maker, EAD, PBL, Gamificação, Metodologias Áudio Visuais Participativas, etc), que os resultados serão sempre de ponta/excelência. É uma bolha. Um recorte metodológico. Inovar assim é moleza, meu chapa. Quero ver você pegar algumas dessas metodologias descoladas e ir na perifa, longe de tudo, onde falta tudo, não tem internet, os computadores foram roubados, com alunos em situação de violência, onde a merenda foi roubada pelos políticos (Alô Capez!!!), falta dinheiro/investimento público, alunos pobres, sem perspectiva alguma de futuro, sem acesso a nenhum tipo de cultura ou arte, com famílias completamente desestruturadas, com o tráfico ali na esquina tentando aliciar a molecada, que trabalham para sobreviver e comer a próxima refeição, você conseguir lá um trabalho de excelência (com números iguais aos daí de cima), eu começo a creditar que são essas metodologias que fazem a diferença.

Bem eu coloquei as minhas inquietações aqui, como forma de tentar entender e tentar acalmar essa zoeira que tem recorrentemente feito um barulho danado na minha cabeça. A solução qual será eu não sei, mas eu só sei que precisamos de uma revolução ou de uma educação revolucionária.

Abraços

Robson Freire

Obs.: Quer saber mais sobre isso tudo? Os links estão ai em baixo e no texto:

O Paradigma de uma Filosofia Educacional Revolucionária e Cidadã – Jeorge Luiz Cardozo

Utopias Revolucionárias e Educação Pública: Rumos para uma nova “cidade Ética” – Patrizia Piozzi

O surpreendente êxito do sistema educacional finlandês em um cenário global de educação mercantilizada – Remo Moreira Brito Bastos

Socialismo e Cultura – Antonio Gramsci

Antonio Gramsci – Attilio Monasta – MEC

Luta de Classes, Educação e Revolução – Newton Duarte

Hegemonia e Cultura: A Dimensão Política da Educação e a Formação Escolar em Antonio Gramsci – Anita Helena Schlesener

A Escola Unitária: Educação e Trabalho em Gramsci – Maria Isabel Moura Nascimento e Denise Kloeckner Sbardelotto

Como Mudar o Mundo: Marx e o Marxismo – Eric J. Hobsbawm

Tempos Fraturados – Eric Hobsbawm

Sobre História – Eric Hobsbawm

O que é História Cultural? – Peter Burke

A Civilização do Ocidente Medieval – Jacques Le Goff

A pedagogia histórico-crítica como teoria pedagógica revolucionária – Eraldo Leme Batista e Marcos Roberto Lima

Educação como Prática da Liberdade – Paulo Freire

Pedagogia do Oprimido – Paulo Freire

Escola e Democracia – Dermeval Saviani

Neurociência Para Educador: Coletânea De Subsídios Para Alfabetização Neurocientífica – Terezinha Augusta Pereira De Carvalho e Damaris Flor

Neurociência e Educação: Como o Cérebro Aprende – Ramon M. Cosenza

Educando com a Ajuda das Neurociências: Cartilha do Educador – Instituto Glia

Educação e trabalho: bases para debater a educação profissional emancipadora – Gaudêncio Frigotto

Abominável Sociedade – Fernando Horta

Aprendizagem Baseada em Projetos: Educação Diferenciada para o Século XXI – Willian N. Bender

A Gamificação Aplicada em Ambientes de Aprendizagem – Marcelo Luis Fardo

Gamificação na Educação – Luciane Maria Fadel, Vania Ribas Ulbricht, Claudia Batista e Tarcísio Vanzin (eBook Gratuito)

A Era dos Direitos – Norberto Bobbio

Lenin, Educação e Revolução – Edison Riuitiro Oyama

3 comentários sobre “Que revolução é necessária para uma Educação Revolucionária?

  1. profjc disse:

    Robson, isso não é um “post”, é quase um tratado, um estudo bibliográfico e uma enciclopédia de múltiplas provocações.
    Vou recomendar para todos.
    Quanto à questão fundamental, não tenho nenhuma ideia sobre como reinventar a escola dentro do contexto sócio-político que vivemos. Todas essas propostas revolucionárias que você tão bem recuperou da história são centradas em modelos sociais inexistentes e que, para existirem, dependeriam muito da escola que se pretende criar a partir deles (que, no entanto, inexistem). Ou seja, não vamos mudar o mundo sem mudar a escola, e não vamos mudar a escola sem mudar o mundo; portanto, não vejo possibilidade de revolução na educação fora de um contexto revolucionário mais geral.
    Para piorar, nem sempre as mudanças significam melhorias. A história é pródiga em exemplos.
    Continuo refletindo…

    • Robson Freire disse:

      Olá meu amigo querido

      Primeiramente muito obrigado pela presença e pelo generoso comentário. Agora, e não é essa intenção da postagem? A única reflexão/opção possível depois de ler o texto é a opção por uma revolução conjunta: social e educacional. Não haverá mudanças possíveis enquanto se tentar mudar em cima do que não tem mais conserto. A opção pelo “fim da escola” não é pelo sentido literal que muitos pensam e sim pelo fim do modelo de escola praticado, dentro do modelo de sociedade/sistema social atual. Enquanto tentarmos mudar em cima disso que hoje existe, teremos vitórias pontuais e principalmente a serviço das classes dominantes/capital.

      Alguns vão dizer que isso é anárquico, que vai contra as “leis de Deus”, que não precisa destruir tudo que podemos aproveitar alguma coisa… sim podemos aproveitar a imensa inquietação, frustração e sentimento de incapacidade dos professores para gerar uma revolta tão forte que e que se movimente tão rápido que não aja força possível de detê-la. Que a revolução comece com a “destruição da escola” e que faça ruir os pilares da atual sistema sociopolítico que existe hoje.

      Vamos refletindo e preparando a revolução

      Abraços do amigo

      Robson Freire

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