Projeto Cinema no Caldeirão: A Ganha-Pão (The Breadwinner) 2017

Olá amigxs

Eu adoro ver filmes de outros países, pois tenho uma sede quase que insaciável de conhecimento de outras realidades sociais, culturais e históricas. A maioria dos filmes ofertados são do circuito estadunidense e europeu, que são já estão por demais batidos  para que acrescente algo que desperte meu interesse e que me mova na busca de mais e mais informações sobre o assunto visto. Ontem assisti a animação A Ganha-Pão (The Breadwinner), o filme/animação é uma adaptação do romance da ativista ligada aos movimentos feminista pacifistaDeborah Ellis (já tem lançado lá fora o The Breadwinner: A Graphic Novel do livro/filme AQUI), com direção da britânica Nora Twomey e tem o roteiro de Anita Doron e é coproduzido por cinco países.

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Não basta você viver no meio de um deserto inclemente. Não basta você viver em um país devastado por anos de guerra. Não basta você estar sob o domínio de cruéis extremistas religiosos. Não basta você ser pobre. Não basta você ser uma criança cujo pai idoso e sem uma perna foi aprisionado injustamente, você ainda tinha que nascer mulher. Esta é a história de Parvana, filha de uma escritora e de um professor, contada na lindíssima animação

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A Ganha-Pão (The Breadwinner), é um filme de animação que celebra a coragem de uma menina afegã para desafiar o regime Talibã e sustentar a sua família, vestindo-se de rapaz. A trama gira em torno de Parvana, que se disfarça como um menino para poder arrecadar dinheiro para sua família quando seu pai é preso injustamente. A animação também explorará mais da história, cultura e belezas do Afeganistão.

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Para nos lembrar que animação não é apenas para crianças e fazer as pessoas enxergarem essa história, a produção ganha cores fortes e traços simples, mas uma narrativa crescente e arrebatadora e por mais que esteja intrinsecamente associada ao público infantil, a animação não é exclusiva para menores. E não estamos falando dos filmes “para adultos que crianças podem assistir”, especialidade maior da Pixar Animation Studios, mas de produções que realmente invistam em temas profundos e reflexivos (algo que os desenhos japoneses do Hayao Miyazaki do Studio Ghibli fazem a bastante tempo) que sejam também um espelho da sociedade ali representada. Os traços gráficos e as pinceladas coloridas no papel muitas vezes contam histórias mais pesadas e reais do que poderíamos conceber em uma encenação entre seres humanos.  O encanto da obra se deve à perspectiva da história, isto é, a narração se desencadeia pelo olhar de Parvana (Saara Chaudry), uma menina de 11 anos que cresce sob o regime do Talibã no Afeganistão no período de guerra em 2001.A Ganha-Pão, indicado ao Oscar 2018 que chegou ao Brasil diretamente pela Netflix, integra este grupo.

Como inicialmente disse acima, o filme/animação é um retrato clínico e desolador acerca da vida no Afeganistão, terra dos talibãs. e transportar para as telas a parte do mundo assolada pela ditadura islâmica, a qual o ocidente não quer ver e muito menos os espectadores da forma como é contada já é uma vitória. Mais do que propriamente denunciar suas práticas, este longa protagonizado por mulheres busca compreender como o país chegou ao estágio retratado, em que à mulher cabe procriar e nada mais. O início verborrágico atende este objetivo, resumindo em poucos minutos séculos de lutas onde conquistadores entraram e saíram, à custa do sofrimento da população local. Em meio ao caos, ascendeu o extremismo que condenou às mulheres a soturna e emblemática burka.

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Apenas por este preâmbulo, já é possível discorrer sobre os reflexos do caos e o quanto a ausência de alguma ordem possibilita que absurdos ganhem corpo apenas por serem viáveis. Entretanto, A Ganha-Pão vai além ao rapidamente abandonar o didatismo histórico para representar, no dia a dia, os reflexos de tal política. É quando entra em cena a jovem Parvana.

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Filha de uma escritora e de um professor, Parvana sabe ler e escrever – ao contrário da imensa maioria de suas conterrâneas. É ao seu olhar que toda a narrativa acontece, discorrendo tragédias humanas tão cotidianas que nem são mais combatidas, apenas evitadas – quando possível. É neste ponto que está a imensa tristeza deste longa-metragem: notar, dia após dia, o acúmulo de absurdos que soam absolutamente normais. Da prisão abusiva do pai à negativa das pessoas em vender comida à uma criança desacompanhada, por mais que ela suplique por ajuda, A Ganha-Pão dói, profundamente, por apresentar a face feia de uma sociedade raivosa e disposta a fazer o que for necessário, em nome de uma aparente tranquilidade.

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Nesta profusão de dores, Twomey tenta trazer algum alento a partir de uma trama paralela, lúdica, onde Parvana conta uma história inventada. É interessante notar a dualidade nos traços de animação: a paleta de cores em tons pastel da realidade se converte em algumas (poucas) cores mais vivas, com os personagens ganhando movimentações típicas de fantoche que você pode conferir abaixo. Entretanto, com o decorrer do filme, mesmo esta válvula de escape entrega um demolidor soco no estômago.

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Quanto mais aprofundamos no mundo de Parvana, mais aterrorizante soam as condições de vidas tão díspares para os mesmos habitantes deste planeta. Com interpretações que transmitem a dor e a doçura quando necessárias, a animação pesa aos olhos quando há um momento de espancamento de uma mulher pela patrulha local porque ela está na rua desacompanhada de um homem. Cada dia que Parvana sai para carregar peso, quebrar pedras, limpar garimpos e mais uma dúzia de trabalhos braçais, ela se arrisca a ser descoberta.

Através dos contos de Parvana e a sua esperança em meio a escuridão, o filme nos quebra emocionalmente. E é por este e outros densos detalhes que esta história não poderia ser encenada, apenas desenhada como os grandes olhos de esmeralda de Parvana a mirar um destino longe daquele lugar.

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Dolorosamente real, A Ganha-Pão é daqueles filmes que destroem a alma, mas são necessários pela urgência dos temas que eles tratam e que devem ser debatidos em sala de aula e em casa. Ao longo do filme de animação, nos são apresentados, por vezes de uma forma sutil, problemas da sociedade afegã, como a da negação da identidade, de direitos e de autonomia às mulheres ao desespero de uma mãe em defesa dos filhos, os casamentos infantis, as mortes causadas por minas terrestres, a violência física contra as mulheres, os subornos, o trabalho infantil, o analfabetismo, os casamentos arranjados, a misoginia, a guerra e o uso de armas por parte de jovens, enfim a animação entrega um punhado de situações devastadoras, ao mesmo tempo em que ressalta a necessidade da cultura como resistência ao autoritarismo.

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Uma das melhores criticas sobre a temática das mulheres no Afeganistão, a do site Plano Crítico é imbatível. Vejam como ele retrata:

“Enquanto em boa parte do mundo ocidental muitas mulheres não conseguem andar nas ruas sem serem olhadas, tocadas e até estupradas, devoradas por olhos masculinos doentes, presos a uma ótica perversa de mundo, nesse cenário de A Ganha-Pão (The Breadwinner), no meio de conflitos maiores do que as perspectivas assimiláveis por uma garotinha, mulheres são proibidas de andar nas ruas sem a companhia do pai ou irmão.

Até mesmo garotinhas como Parvana, são caçadas pelas ruas de um Afeganistão controlado pelo Talibã. Ao serem detectadas como mulheres, são julgadas, agredidas e perseguidas por estarem “se exibindo” para os homens, atos completamente misóginos. Se essa situação já é absurdamente revoltante na teoria, sem ser necessária uma vivência neste ambiente hostil para que absorvamos o mínimo suficiente capaz de realçar em nós uma indignação fervente, a animação, uma co-produção internacional, consegue impulsionar a nossa repulsa drasticamente, mostrando o dia-a-dia cruel e tenso de uma família sem condições de seguir as regras impostas por um regime cego diante de sua própria estupidez. Ao mesmo tempo, a guerra alvorece no horizonte, ameaçando entrar nas ruas que, em tempos diferentes, Parvana e seus irmãos, os pequenos, os maiores e os que se foram, poderiam estar correndo, brincando como crianças deveriam brincar, sem maiores preocupações

Paralelamente, e ligado a estes tempos, somos também confrontados com estórias de mitos e monstros do do folclore local que ganham réplicas nos tempos modernos, tudo num jogo curioso feito em vários estilos de animação, que enriquecem não só a narrativa como a vertente estética, extremamente rica, embora sem os meios já tão batidos e tediosamente iguais do cinema feito pela Disney ou pela Pixar,

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Profundamente tocante e urgente na apresentação de fatos culturais de aparência medieval dos talibãs, o filme tem ainda a grande virtude de não cair na tentação de apresentar personagens bidimensionais, pois nem tudo e todos são o mesmo modelo humano, social e cultural. No meio de algumas personagens secundárias, surgem umas tantas suficientemente ambíguas para uma fuga clara aos clichés. Seu consolo é o encontro com a antiga amiga de escola Shauzia (Soma Chhaya), que também se passa por um menino. Juntas elas descobrem a liberdade de poder caminhar por qualquer lugar e fazer o que quiserem apenas por mudarem de gênero. Os diálogos entre meninas são pérolas preciosas para um entendimento sobre o que seria o sentimento na pele de um regime misógino do islamismo. O filme possui todos os elementos das grandes obras cinematográficas: um roteiro perfeitamente amarrado, personagens cativantes, o suspense crescente, revelações estarrecedoras e as aspirações juvenis de meninas aprisionadas por terem apenas nascido em um determinado local neste vasto mundo.

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E é maravilhoso ver como o imaginário e a triste realidade se fundem numa impossível adiamento da chegada da maturidade da personagem central e com o final feliz possível que pode ser resumido na frase do poeta Rumi (1207 – 1273) (ele foi um poeta e mestre espiritual persa do século XIII. Seus poemas adquiriram grande popularidade principalmente entre os persas do Afeganistão, Irã e Tajiquistão) que aparece no final do filme pouco antes dos créditos:

“Ergue as tuas palavras, não a tua voz. É a chuva que faz as flores crescer, não o trovão”.

Assisti ao filme com um nó na garganta desde os primeiros minutos e com lágrimas incontidas nos últimos. Tudo o que posso fazer, sem dar spoilers, é recomendar veementemente que você o assista. Seja você quem for. Se  você for homem, assim como eu. assista com honestidade e permita-se sentir-se um bosta pelo simples fato de ser um homem. Você precisa disso para crescer e tornar-se um adulto. Se mulher, eu ofereço-lhe tal recomendação como o mais sincero pedido de desculpas pelo que quer que nós, homens, possamos ter-lhe causado. Excelente filme, um dos melhores lançados no Brasil em 2018.

Um filme para ver e refletir…

Abraços

Robson Freire

Ficha Técnica:

Titulo no Brasil: A Ganha-Pão
Titulo Original: The Breadwinner
Produção: Canadá/Irlanda/Luxemburgo, 2017
Direção: Nora Twomey
Roteiro: Anita Doron, Deborah Ellis
Elenco: Saara Chaudry, Soma Bhatia, Noorin Gulamgaus, Kane Mahon, Laara Sadiq, Ali Badshah, Kanza Feris, Shaista Latif, Kawa Ada, Ali Kazmi, Reza Sholeh
Duração: 93 min.
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=SrT-EgPgSSQ

Obs.: Quem não tem Netflix pode baixar o torrent AQUI

 

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