Projeto Cinema no Caldeirão: A Livraria (The Bookshop) 2018

Olá amigxs

Uma das coisas que mais gosto de fazer é ler e livros são a minha minha grande paixão. Eu fiz uma postagem falando dessa paixão e sobre a importância do ato de ler, mas quero mostrar primeiro o porquê que essas palavras do Marcos Medeiros, definem o que vou contar a seguir:

“Os livros são objetos transcendentes/ Mas podemos amá-los do amor táctil/ Que votamos aos maços de cigarro/ Domá-los, cultivá-los em aquários,/ Em estantes, gaiolas, em fogueiras/ Ou lançá-los pra fora das janelas/ (Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)”  Na belíssima Livros, nosso bardo mais titânico, o não menos belo Caetano Veloso, aponta para a aura quase espiritual que esses objetos metafísicos assumem nas vidas humanas. Um livro sempre assinala algo que está além dele.

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“Ela me disse uma vez: “Quando lemos uma história, nós a habitamos. As capas dos livros são como teto e quatro paredes, uma casa.” Ela amava o momento de terminar um livro e a história prosseguir como um sonho na sua cabeça. E depois disso, ela gostava de longos passeios para limpar a mente das emoções e sensações que o livro havia provocado. Naquela mesma manhã após anos confusos de leituras, passeios e luto pela morte do marido, Florence Green despertou sabendo exatamente o que queria fazer. Abriria uma livraria na pequena cidade onde foi morar.”

Vocês se lembram do romance A Livraria de Penelope Fitzgerald? Um romance super gostoso de ler acabou virando um filme. Isso mesmo! O livro virou um filme e hoje eu vi o filme A Livraria (The Bookshop), que ganhou o importante Prêmio Goya do Cinema Espanhol, da diretora espanhola Isabel Coixet que é baseado no livro The Bookshop, de Penelope Fitzgerald, e o filme tem um roteiro adaptado que é um primor de sensibilidade ao abordar alguns sentimentos humanos de forma tão profunda e delicadamente sensível.

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Pra quem não leu o livro, a história conta um recomeço da viúva Florence Green (interpretada por Emily Mortimer), que é uma leitora voraz. Fica viúva, se joga na leitura como quem procura companhia e cura para o luto, e um dia se vê preparada para vencer o medo e realizar seu sonho: abrir uma livraria. E essa nova livraria no pacato vilarejo de Hardborourgh, uma tranquila localidade onde vive, na Inglaterra, em 1959. E dá certo! A livraria vira um sucesso, gerando apatia nos outros lojistas, incomodados com tal prosperidade.

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“Entre livros, ninguém pode se sentir sozinho”

Só que ela encontra, nesse pequeno vilarejo inglês à beira-mar, resistência dos moradores, e o resultado disso é o embate com os interesses  e que acaba sabotada pela Sra. Violet Gamart (Patricia Clarkson) a toda-poderosa, que não está acostumada a ouvir não das pessoas, que manda na cidade, mas que é uma pessoa vingativa e amargurada e que se julga a última Coca-Cola do deserto da cena artística local. A Florence se encanta com um senhor recluso e amante da literatura, Edmund Brundish (Bill Nighy), e enfrenta tudo e todos para seguir com seu projeto. É interessante ver como Florence enfrenta os homens que entram em seu caminho dificultando a abertura da livraria.

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Em resumo, A Livraria (The Bookshop) relata as dificuldades e obstáculos que Florence encontra no processo de readaptação, como ignorância, inveja e a falsa moral e bons costumes dos cidadãos que irão tentar colocar um fim no sonho dela.

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Fiquei encantado com a delicadeza e o visual do filme. Além da direção segura e da excelente adaptação feita do livro para o filme, em uma primeira análise se mostra um filme que aborda as questões feministas em relação à trabalho, remuneração e igualdade. Sim, estes temas estão todos ali, mas se tratam apenas de uma das camadas  da narrativa que dá oportunidade a outras mais profundas, que se revelam quando aprofunda-se um pouco mais na narrativa e acabamos percebendo mais detalhadamente, que o filme aborda de maneira sutil a solidão em suas diversas expressões. Outra leitura que o filme traz é sobre livros, ou mais especificamente sobre quem ainda compra livros, como disse a própria diretora. Embora de forma muito sutil, a paixão por livros está presente no longa em diversas situações. Essa paixão é o início do sucesso e o gatilho do fracasso de Florence. Mesmo com todas as controvérsias, ela  (assim como eu) jamais renega sua paixão.

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Tem que olhar para o filme como quem olha uma fábula. A narrativa é poética e os personagens parecem mais simbólicos do que propriamente reais. O filme é a perfeita definição de “filme leve” sem que, de maneira alguma, tal denominação soe como demérito. A direção cuidadosa transforma uma narrativa tradicional em três atos, sem grandes arroubos ou reviravoltas de roteiro, em uma produção bem-feita, caprichosamente bem feita, gostosa mesmo de assistir, ainda que não se aprofunde em grandes problematizações. Dito isso, pra quem quer um filme leve e singelo, esse é o filme. Mas preciso fazer um adendo aqui para quem vai assistir o filme. A Ana Elisa Monteiro, que escreveu uma critica sobre o filme para o blog Coisas de Mineira, fez uma observação que eu gostaria de deixar registrada aqui:

“A primeira coisa que preciso dizer do longa é: é um gênero peculiar. Falo isso, porque não é qualquer pessoa que fica quase 2 horas no cinema assistindo um filme que possui muita pouca ação – para não falar nada -, e que tenha um ritmo bem lento – para não falar parado. E sinceramente, eu sou uma dessas pessoas. Alguns já nessa parte vão desistir de ver a produção, tenho certeza, mas vamos falar um pouco dela então.”

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Então por isso esteja preparado para ver um filme sem muitas cores, explosões e ritmo alucinante e sim um filme mais escuro, de narrativa lenta. Visualmente falando, A Livraria é um colírio para o espectador. O trabalho de câmeras se destaca, oferecendo ângulos inesperados e extremamente bonitos. A fotografia inspirada de Jean-Claude Larrieu ganha força ao potencializar o excelente trabalho da direção de arte e os belíssimos cenários, com destaque ao prédio que dará nome ao filme. Mas uma coisa diversos críticos e eu podemos atestar é a grata surpresa com o desempenho da pequena atriz Honor Kneafsey que rouba a atenção sempre que aparece como a funcionária pré-adolescente e pernóstica Christine.

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A Livraria é um excelente filme, mas não é pra todo mundo. Ele é cheio de sutilezas e silêncios carregados de significados, que muitos não saberão interpretar e poderão achar lento. O filme é uma diversão agradável e muito bem-feita e repleta de atuações maravilhosas, ele é um daqueles filmes que nem percebemos o tempo passar enquanto assistimos o desenrolar da trama e nos envolvemos com os personagens. E surgirão vínculos muito belos entre os personagens, que desejariam ter se conhecido em outra vida.

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O filme também é cheio de referências bibliográficas, que o levará a descobrir o soberbo Ray Bradbury e seu Fahrenheit 451, As Crônicas Marcianas, As Maçãs Douradas do Sol e O Vinho da Alegria. Mas o grande destaque vai para “Lolita”, de Vladimir Nabokov, que desafiará a moral convencional com a sua perturbadora e extraordinária Lolita.

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Infelizmente, amigos, o bem nem sempre vence. Mas, o que nunca as Violets da vida poderão nos roubar é o amor verdadeiro, a bondade e os sonhos, coisas que jamais conhecerão. Florence deixou uma semente plantada. Essa é a mensagem do filme. Vale, com certeza, uma tarde de sábado para ver esse filme. Ah, e de bônus ainda vai te dar uma vontade desgraçada de reler o maravilhoso Lolita, de Nabokov. Aqui o link para quem quiser ver ele em casa.

Abraços literários a todos

Robson Freire

UPDATE: Eu sempre recomendo/indico críticas que leio e que gosto nas postagens que faço sobre o filme que assisto, quase sempre linkadas no texto ou no final, mas eu ainda não havia lido a crítica que a querida amiga Tatiane Martins (a moça do Sarau na Rede, que aliás vamos fazer o próximo quando?) fez no blog dela, o sempre maravilhoso, Tatiando a Vida. É sempre bom ler outras críticas, pois elas sempre colocam um ponto que as vezes passa despercebido ou uma colocação que parece que foi sua boca quem disse. É uma das citações que ela coloca lá, que eu gostaria de deixar aqui é essa:

“Esse filme para mim também é um banho frio de realidade: nem sempre quem luta com todas as suas forças consegue realizar seus sonhos e chegar aonde deseja. Porque as pessoas não são simplesmente o que querem ser. São aquilo que a sociedade lhes permite, com raríssimas exceções (e o filme mostra isso também). Esse é o eterno jogo cruel de poder e de relações.”

Fantástico.

Ficha Técnica:

Título original: The Bookshop
Nacionalidades: Espanha, Reino Unido, Alemanha
Gênero: Drama
Ano de produção: 2017
Estréia: 22 de março de 2018 (Brasil)
Duração: 1h 53 minutos
Classificação: 10 anos
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet. Baseado no livro escrito por Penelope Fitzgerald
Produção: Jaume Banacolocha, Joan Bas, Jordi Berenguer, Adolfo Blanco, Sol Bondy, Alex Boyd, Ricardo Marco Budé, Chris Curling, Manuel Monzón, Paz Recolons, Fernando Riera, Albert Sagalés, Ignacio Salazar-Simpson, Thierry Wase-Bailey, Jamila Wenske, Henriette Wollmann
Trilha sonora: Alfonso de Vilallonga
Direção de fotografia: Jean-Claude Larrieu
Edição: Bernat Aragonés
Design de produção: Llorenç Miquel
Direção de arte: Marc Pou
Decoração de set: Rebeca Comerma
Figurino: Mercè Paloma
Estúdios: A Contracorriente Films, Diagonal TV, Zephyr Films, ONE TWO Films, Green Films, Mogambo
Distribuição: Cineart Filmes

Trailer:

2 comentários sobre “Projeto Cinema no Caldeirão: A Livraria (The Bookshop) 2018

  1. Robson Freire disse:

    Querida amiga Tati

    Primeiro quero agradecer a sua visita e pelo comentário. Agora que crítica bem legal que você fez!!! Eu gostei tanto que fiz uma atualização na postagem para poder incluir sua críticas nela. As limitações, ou algemas, sociais, econômicas, morais e principalmente intelectuais são determinantes para que nos mantenham presos na nossa mesquinhez humana. Destruir projetos é mais fácil do que construir ou tornar eles realidade, mas duas coisas eles não conseguem destruir: Paixão e Sonhos. Pois esses assim como as ideias são imortais. Mais uma vez obrigado e volte sempre.

    Abraços

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