Projeto Cinema no Caldeirão: The Tale (2018)

Olá amigxs

Uma das @ que sigo no Twitter, o Iuri K. (@cinefilo_K) que eu #recomendo seguir, fez uma indicação de filme na timeline dele que me deixou curioso para assistir. Eu decidi assistir o filme (que foi sensação no Festival de Cinema de Sundance desse ano) e fiquei impactado demais, pois é uma história que mexe com você de muitas maneiras.

Sou um cara bastante forte para assistir filmes que tenham temáticas mais difíceis, duras, realmente espinhosas que muitas das vezes chocam ou nos causam ojeriza no espectador, mas o filme The Tale me deixou muito incomodado. O tema é atualíssimo e necessita que seja exaustivamente debatido, e principalmente denunciado qualquer caso de assédio contra mulheres e crianças. Vivemos numa sociedade machista, misógina, sexista, predadora e que objetifica as mulheres como coisas a serem “consumidas” relegando a elas um papel de subserviência aos desejos mais podres do bicho homem, além de que trazer, ou fazer, filmes assim fazem pensar o porque de tanto silêncio e sofrimento, por um tempo demasiadamente longo, que as vitimas passam.

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O filme toca numa ferida muito forte e que faz uma jornada dolorosa pelas memórias que apagamos, ou queremos esquecer, mas que ficam ali no nosso subconsciente impedindo de nos relacionarmos afetivamente de forma adulta. O filme The Tale faz parte do movimento #MeToo, que é uma hashtag que expõe a magnitude mundial do assédio sexual, e que teve diversas celebridades e milhares de outros usuários nas redes sociais, inclusive no Brasil, compartilharam histórias de quando foram vítimas de assédio.

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Uma dessa manifestações foi a do escritor “feminista masculinoCharles Clymer (que agora é Charlotte Clymer), que foi vítima de estupro, e afirmou que, embora ambos os gêneros sofram abuso, “há um componente misógino específico na cultura do estupro e faz sentido gastar tempo para destacar a misoginia especificamente e amplificar a voz das mulheres“, e o filme vem dar voz a uma dessas vitimas: a diretora e documentarista Jennifer Fox. Eu li essa entrevista dela ao The Guardian depois de assistir o filme e posso dizer, meus amigos… que jornada dolorosa ela faz. Acho que poucos teriam contado essa história como ela contou.

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Vamos ao filme em questão primeiro. A sinopse do filme basicamente é essa: Uma mulher se vê forçada a reexaminar seu primeiro relacionamento sexual e as histórias que contou para si mesma com o intuito de sobreviver a seus traumas.  No filme Jennifer, é uma famosa jornalista e professora que vive com seu namorado em Nova York, e que parece viver uma vida feliz e estável. Tal estabilidade é estilhaçada quando sua mãe, encontra uma história que Jennifer escreveu para um projeto de escola quando tinha apenas 13 anos de idade. A história é sobre dois orientadores que trabalharam com Jennifer na época, e na história, existem detalhes que retratam relações sexuais. Jennifer se lembra de ter vivenciado algo especial com estes adultos, mas ela convenceu a si mesma ao longo dos anos de que não foi nada demais. Para ela, sua primeira vez foi com um homem mais velho. Mas à medida em que ela começa a olhar com mais cuidado para a verdade sobre o que aconteceu então, ela constata que existem perguntas que precisam ser respondidas. Nesta viagem às memórias da infância, até então congeladas, Jennifer lembra-se de ter vivido uma paixão secreta, completamente manipulada pelos esquemas deste treinador pedófilo. E num processo de investigação, descobre fatos terríveis junto a antigas colegas, percebendo que não era a única a ser abusada. Nesta catarse pessoal, também a mãe percebe como a sua própria inocência a impediu de proteger a filha do pesadelo que a filha viveu.

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O filme tem cenas que causam um repulsa tão forte que nem todos são capazes de assistir. A cena em que Bill (Jason Ritter  que está tão maravilhoso no papel a ponto de você ter vontade de matar ele com suas próprias mãos), o homem mais velho, dá um anel de compromisso a ela como parte do jogo mental e de sedução que destrói a criança e a joga no mundo dos adultos, as cenas de sexo da menina (quase vomitei aqui) são alguns exemplos de que o filme não é para qualquer um. Ele não poupa o público, e apresenta uma história sobre abuso infantil de forma tão visceral que pode fazer com que algumas pessoas desistam do filme no meio do caminho.

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Saber que o filme é baseado em fatos reais e o que torna tudo ainda mais chocante e lança um duro e cru olhar sobre o abuso, o trauma, e o poder da memória. O filme certamente não é digerível para todos, mas é bastante raro encontrar um filme tão impiedosamente confrontador e emocionalmente complexo sobre este difícil tema. Algumas críticas sobre o filme são maravilhosas como a da revista Variety assim como a do Diário de Noticias de Portugal que também fez uma critica que recomendo a leitura, mas primeiro quero deixar registrado aqui essa parte do texto que basicamente define o que você vai encontrar:

“O filme de Fox é um diálogo constante entre a mulher e a sua versão de 13 anos (são espantosas as sequências onde as duas Jennifer se cruzam), mostrando um domínio total no storytelling entre passado e presente. Uma confissão íntima sobre a ilusão da nossa consciência e de como o estado infantil nos pode enganar como dispositivo saudosista. Afinal de contas, esta é uma mulher que inconscientemente não quis assumir o seu papel de vítima, mas que mais tarde escolhe assumir a sua ferida após contornar a dissonância cognitiva, nem que para isso sofra horrores ao lembrar-se de como tudo aquilo foi possível: os fins de semana na casa do treinador, o primeiro beijo e sobretudo a memória dos contactos físicos. A sequência da desfloração é filmada com uma secura que convoca uma estranheza dilacerante. Um choque que faz de The Tale um dos filmes mais perturbadores em anos.”

A quarta parede é constantemente quebrada, e a Jennifer, papel que coube a maravilhosa Laura Dern com um desempenho extraordinário no filme, dos dias atuais conversa regularmente com sua versão da Jennifer adolescente, interpretada com uma delicadeza ímpar por Isabelle Nélisse. É como se Jennifer estivesse transformando a narrativa de seu abuso em uma jornada de empoderamento, mas ao mesmo tempo, a Jennifer adulta está constatando o tamanho do dano que lhe foi causado, e cabe à ela, somente à ela, reivindicar a verdade fazendo um mergulho pessoal e emocional em direção ao trauma e suas cicatrizes atemporais. É possível ver, o grande buraco negro que se abre nos olhos da pequena Jenny, a sensação de que há uma mão apertando seu coração e impedindo de sair sua voz, Ela sabe que está errado aquilo, mas o medo de dizer não, de enfrentar as pessoas à sua volta, de expor sua vergonha… Acabam calando e atormentando ela pro resto de sua vida.

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The Tale é um filme sobre como a memória é capaz de enganar o indivíduo, e como tal indivíduo permite este engano de forma que possa moldar sua vida de maneira que ele próprio não reconhece ou mesmo compreende. Um filme atual e que ganha importância extra nos complicados dias em que vivemos hoje e que também pode trazer um incomodo desesperador por conta da vulnerabilidade da personagem diante daquilo tudo.

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O orgulho e o medo são correntes grossas e esse filme mostra acima de tudo a dificuldade que é enfrentar isso. Aceitar que foi abusada e dizer isso à alguém, é muito difícil e atormentador. É como se fosse uma valsa rumo ao desconhecido, a cada passo, uma reação angustiante que talvez você nunca saiba de nada, que viverá tropeçando na vida e sucumbindo aos seus erros, a sua falta de coordenação motora, ao anseio por esquecer de tudo e cair na beira do abismo, e que em algum momento perceberá que é tão fácil se perder do que realmente aprender a bailar. Ou talvez só se deva escutar a música e esperar que tudo ganhe sentido.

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“Eu sempre quis ter uma história para contar, mas nada aconteceu comigo antes”, ela soa sofisticada e convincente. “Aos 13 anos, você está apenas ansiando por viver, e se vê como sendo muito mais capaz e madura do que realmente é.”. A luta das Jennifer, adulta e criança, travam pelo controle de The Tale, a garota ingênua finalmente olhando para a lente: “Você quer que eu seja uma vítima patética. Bem, você sabe, eu não sou. ”Você respeita a força da jovem Jennifer – e então percebe como essa força se transformou em um adulto que afasta as pessoas. Nossa cabeça tende a culpar a nós mesmas e mudar nossa percepção dos fatos. Nunca vi um filme que retratasse tão bem esses sentimentos. O dilema que foi construído sobre as noções de vítima/culpado foi um dos mais bem narrados que vi em filme. Que filme. Que mensagem.

“You want me to be some pathetic victim. Well, you know what? I’m not.

… You see? I’m not the victim of this story. I’m the hero.”

Abraços

Robson Freire

Obs.: O filme está disponível na HBO ou nos sites FilmesCult ou no CulturaComLegenda em torrent.

Ficha Técnica:

Título no Brasil: The Tale
Título original: The Tale
Gênero(s): Drama
Duração: 114 min
Estreia no Brasil: 26 de Maio de 2018
País: EUA, Alemanha
Idioma: Inglês
Diretor(a): Jennifer Fox
Roteirista: Jennifer Fox
Elenco: Elizabeth Debicki Laura Dern Jason Ritter Frances Conroy Ellen Burstyn Common Laura Allen John Heard Isabella Amara Isabelle Nélisse Chelsea Alden
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Af6VbPT5O4k:

2 comentários sobre “Projeto Cinema no Caldeirão: The Tale (2018)

  1. Robson Freire disse:

    Oi Andrea

    Primeiramente gostaria de agradecer sua visita e seu comentário. Ultimamente as pessoas quase não comentam mais nos espaços virtuais onde o diálogo é possível sem volatilidade do Facebook. Tudo isso é fruto da sociedade líquida e efêmera que vivemos atualmente onde tudo é descartável, inclusive o diálogo que é tão necessário para o engrandecimento do ser humano. O que gosto no filme além do bom elenco e de suas atuações é a aspereza do tema e sua condução. Fazer um filme revivendo um situação de abuso não é para qualquer um e por isso não vemos filmes assim tão facilmente. Mais uma vez agradeço a visita e o comentário e deixo um convite para que volte sempre. Aqui o dono adora conversar.

    Abraços

  2. Andrea disse:

    Pessoalmente fiquei surpresa com este filme. The Tale é um dos melhores filmes de drama, tem uma boa história, atuações maravilhosas e um bom roteiro. O elenco é o elemento que eu mais gostei. O Conto é um dos trabalhos de Laura Dern que eu acho bons.É uma história muito boa mas um pouco pessada. Vale muito à pena, é um dos melhores do seu gênero. Além, tem pontos extras por ser uma historia real. O filme superou as minhas expectativas, realmente o recomendo. É algo muito diferente ao que estávamos acostumados a ver.

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