Das Finitudes da Vida

Olá amigxs

Hoje o texto não é sobre tecnologia, hoje não é sobre cinema, hoje não é sobre educação e muito menos sobre o Caldeirão de Ideias, hoje é sobre a pessoa, o humano que escreve por aqui: Eu Robson Freire.

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Ontem/Sábado eu perdi minha mãe. Foi-se um pedaço de mim, um pedaço da minha história, que contra todas as adversidades da vida, me fez ser quem eu sou. Chorei muito, senti o chão se abrir sob meus pés, faltou-me o ar e uma dor imensa se abateu sobre meu coração. E não venham me dizer que há dor maior que outra, pois cada dor é única. Cada sentimento tem um peso diferente para cada pessoa e a representatividade e intensidade desse sentimento está ligado a afetividade, seja ela de sangue ou não, e por isso a sua dor é sua dor. Nem maior ou menor do que a de ninguém.

Apesar de saber que tudo é finito, não imaginava (ou não queria imaginar) um mundo onde ela não estivesse ali me ligando trocentas vezes ao dia para falar as mais completas abobrinhas apenas para ouvir minha voz. Lembro dela cantarolando Roberto Carlos e a religiosidade de ver ele todo final de ano, dela costurando, nadando, da maioneses de gemas e azeite, do raviolli com frango assado da Dut Massas aos domingos que ela adorava, dela contando piadas com as amigas, sua gargalhada, seu choro contido, seu olhar, sua respiração difícil por conta da asma, sua inconformidade com a idade, da cor do seu batom, a sua habilidade ninja de saber a data do aniversário de todos (e me ligar lembrando delas), seu amor pelos netos e a sua mania incorrigível de tentar acomodar tudo para que todos vivessem em harmonia são lembranças de uma vida compartilhada. Sempre fui parecido com ela fisicamente (cabelo e da incrível habilidade de arrumar /organizar uma geladeira) e hoje ainda mais por causa do vitiligo e das crises de rinite e isso nunca me incomodou, muito pelo contrário, mas herdei também alguns defeitos que demorei a me livrar deles durante a vida. Como todo relacionamento tivemos nossos momentos de altos e baixos, mas que tive a oportunidade de revisitar e discutir com ela nossos “baixos”, o que foi libertador tanto para mim como para ela.

Ela teve uma vida muito difícil, que foi causada por suas deficiências físicas e por suas escolhas. Foi vítima de violência física em um relacionamento abusivo com meu pai, mas lutou como uma leoa sempre para dar a mim e a meu o irmão, sempre o melhor de tudo trabalhando a vida quase toda em dois empregos. Passamos grandes dificuldades, mas sempre superamos essas dificuldades juntos, na mesma casinha de quarto e sala no Vital Brasil, que ela foi transformando em lar, onde vivemos juntos por 24 anos.

Ela teve muitos amigos queridos no trabalho e na vida cotidiana que tornaram esses espinhos em flores durante a jornada dela. Amigos esses que ficaram até o último suspiro dela, se revesando nas visitas. Dona Edir, Dona Glória, Dr Curi, Dr Maurício Veloso, Celi, Margarida, Cirlene da Associação do PRODERJ e Darcy são amizades de mais de 50 anos, mas os laços que ela fez com Dona Eva e seus filhos José e Risonete, das amigas Maria Amélia, Andréa, Nurie, Zezé e todas as pessoas do Sopão e da Igreja, na figura maior do padre Daniel no Campo Novo são de uma ternura e força de amizade que eu quero deixar aqui o meu eterno agradecimento a todos eles. A meu irmão, minha cunhada e meus sobrinhos que ficaram com ela até o fim, também quero deixar registrado o meu agradecimento eterno a eles por tudo que eles fizeram pela minha mãe. Por tudo mesmo.

Eu infelizmente não consegui me despedir como eu desejava, mas ela sabia de todos os motivos pelo qual eu não consegui estar antes com ela. Quando fui ter com ela a minha despedida, e vê-la ali inerte, sedada, entubada me deu uma dor tão grande que eu desejei que um milagre acontecesse. Mas que egoísta eu sou… Querer a permanência dela aqui sem um pingo de dignidade ou qualidade de vida, apenas para satisfazer o meu egoismo de tê-la aqui comigo mais um pouco e ela que tanto me ensinou a dividir, a repartir a alegria de viver, não ia querer isso nunca para ninguém e muito menos para ela. Então no regresso para casa depois dessa visita eu vim pedindo a Deus que fosse feita a vontade dele e que ele cuidasse dela como uma serva fiel, que ela foi em vida.

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Hoje acordei pensando e sai para pensar um pouco mais e refletir sobre tudo e como tudo aconteceu. Pensei nas finitudes e recomeços da vida, no que deixamos, o que levamos e principalmente o que plantamos. O que é finito? O que é eterno? Quando morremos tudo acaba? O que acontece? E pra onde vamos? Cada um dentro de sua crença tem uma visão disso e o que minha mãe queria e acreditava, que eu espero que tenha acontecido, era estar no reino dos céus. E eu? Sempre penso como vi, vivi e aprendi o que é morrer. Eu já morri e renasci a 5 anos quando descobri ser portador de um câncer de cólon e que por conta disso fiquei ostomizado. Fora os fins e os recomeços na vida que foram estruturantes no aprendizado para ser o que sou hoje. Mas foi no curso de História que aprendi e aprofundei a minha paixão pela filosofia, que me deu um maior entendimento sobre a morte, renascimentos, finitudes, recomeços e principalmente sobre a vida e a morte.

Da filosofia de Platão a Heidegger, a filosofia é repleta de teorias e ensinamentos sobre a morte, tema que apavora e também instiga a humanidade a pensar nas finitudes que ela representa. Arthur Schopenhauer, um dos pensadores alemães do século 19, diz que “a morte é a musa da filosofia” e, por isso, Sócrates definiu a filosofia como “preparação para a morte”. Sem a morte, como um divisor de águas, seria mesmo difícil que se tivesse filosofado. O exercício filosófico e a experiência da morte aparece em destaque em um dos mais belos diálogos platônicos: o Fédon – dedicado ao tema da imortalidade da alma. Escrita por Platão, onde ele narra os últimos momentos da vida de Sócrates, instantes antes de tomar cicuta em cumprimento da pena capital à qual fora condenado pelas autoridades de Atenas (para quem não sabe Sócrates prefere a morte a ter que pautar sua vida em critérios e valores definidos pelas leis da pólis). Então vou refletindo sobre isso e penso que será que vale a pena morrer por aquilo que se acredita? Não abrir mão de suas convicções, de sua fé até diante da morte?

FILOSOFIA-SOCRATES

Um dos grandes méritos de Epicuro foi ter contribuído para libertar as pessoas do medo, sobretudo, da morte. Ao considerar o ser humano como uma entidade coesa, formada por um conjunto de átomos em movimento, Epicuro concebe o fim da vida como um processo tão inevitável quanto natural, descrito como a simples dissolução dessas partículas elementares que, mais tarde, se reunirão novamente, dando origem a outros seres. Razão pela qual o filósofo sustenta: “A morte nada significa para nós”. Ao contrário do que acreditavam Sócrates e Platão, ele justifica sua convicção: “A morte é uma quimera: porque enquanto eu existo, ela não existe; e quando ela existe, eu já não existo”. Ai está uma coisa que sempre acreditei e que minha mãe sempre disse que onde um está o outro não estará e que para que isso não gere ressentimentos ou culpas, que se faça em vida, pois em morte o “eu” já não estará mais aqui.

Arthur Schopenhauer, que é conhecido por seu pessimismo e por suas ligações com Budismo (entre outras filosofias da Índia), questionou incessantemente a vida e a morte e os problemas psicológicos humanos, apresenta a morte como pedra chave para a filosofia, como pode ser visto em algumas passagens de seu livro “A metafísica da morte”: “No fundo, entretanto, somos uno com o mundo, muito mais do que estamos acostumados a pensar: sua essência íntima é nossa vontade; seu fenômeno é nossa representação.” Para quem pudesse ter clara consciência desse ser-uno, desapareceria a diferença entre a persistência do mundo externo, depois que se está morto, e a própria persistência após a morte.

O mais pleno significado de que a ignorância é uma benção, para alguns, vem de Schopenhauer, que diz que enquanto a filosofia permanece desconhecida, o homem vive de forma tranquila e é o conhecimento de sua existência e a percepção de que se é finito que o torna temente à morte. Essa visão reitera a ideia de que um dia a matéria terá fim: “O animal vive sem conhecimento verdadeiro da morte: por isso o indivíduo animal goza imediatamente de todo caráter imperecível da espécie, na medida em que só se conhece como infinito. Com a razão apareceu, necessariamente entre os homens, a certeza assustadora da morte”. Mas temer a morte aprisiona, limita o ser, o eu, e que ter ciência da finitude talvez possa ser um elemento de libertação e não de aprisionamento do espirito e do corpo, o que tornaria a nossa existência e os relacionamentos intensos e duradouros.

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Mas por que não vivemos para sempre? Schopenhauer tem um capítulo “A Morte“ que diz que “Se concedessem ao homem uma vida eterna, sentiria tanta repugnância por ela que acabaria desejando a morte, farto da imutabilidade de seu caráter e de seu ilimitado entendimento. Se exigíssemos a imortalidade perpetuaríamos um erro porque a individualidade não deveria existir, e o verdadeiro fim da vida é livrar-nos dela.” Por isso a finitude da existência é tão importante para nós, pois somente conscientes desse tempo finito no plano terrestre é capaz de fazer com que vivamos nosso tempo aqui de forma intensa. O famoso viva como se não houvesse amanhã. Lembre-se de que realmente não há amanhã para quem se foi e o “mãe, eu te amo” não dito ou vivido ficará para sempre preso em seus lábios e causando dor e remorso em seu coração, sem que tenha alegrado o outro.

Para Friedrich Nietzsche, o homem vivencia a morte de duas formas, de forma covarde ou voluntária: “A morte covarde pode ser definida, em poucas palavras, como a experiência da morte como um acaso, cujo efeito imediato é o desejo de morrer. Nesse caso, deseja-se morrer porque se morre. A falta de longevidade da vida basta para que se pregue o abandono da mesma.”. Para fundamentar sobre as consequências da morte covarde, Nietzsche faz menção à lembrança inerente ao homem, considerado por ele como a causa de todo o sofrimento humano, sendo este submetido ao tempo que passa, perdendo a possibilidade de mudança da realidade. O homem não tem noção real de tempo, sendo acometido à morte que “parece ser um acidente que assalta”. A morte surge, para essas pessoas, como uma fatalidade. Por fim, a raiva da morte surge na esteira da raiva do tempo. O espírito de vingança, ao condenar o tempo que impede o homem de ser inteiramente aquilo que se é, condena a morte inevitável quando diz: “tudo perece, tudo, portanto, merece perecer!”. Mas porque ter raiva da morte se viveste na plenitude? Por ser covarde diante dela, se o que a vida quer da gente é coragem?

Martin Heidegger, diz que o homem está especialmente mediado por seu passado: o ser do homem é um “ser que caminha para a morte” e sua relação com o mundo concretiza-se a partir dos conceitos de preocupação, angústia, conhecimento e complexo de culpa. O homem deve tentar “saltar”, fugindo de sua condição cotidiana para atingir seu verdadeiro “eu”. É o do sentido de “ser”: os modos e as maneiras de enunciação e expressão de ser, que está a importância em alcançar o melhor sentido de ser, para enfrentar a morte. Aqui a história, sua trajetória, suas pontes morais e afetivas construídas, sua base emocional, seu caráter e suas ações diante da vida definem como será sua partida e que legado terá ficado para ser lembrado. Qual foi a semente que você deixou? Pelo que será lembrado?

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Para Michel de Montaigne, a expressão “morrer” vai muito além de seu sentido comum. Para ele, há duas formas de se deparar com a morte: pelo estudo e pela contemplação. “Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade”. A morte como forma de liberdade, em que felizes são aqueles que não temem diante dela é o que ele acredita como redenção do corpo e da alma. Ele argumenta que existe um firme contraste entre aqueles que a consideram a morte um mal e os que a consideram a morte um bem: “Ora, essa morte que alguns chamam de a mais horrível das coisas horríveis, quem não sabe que outros a denominam o único porto contra os tormentos desta vida? o soberano bem da natureza? o único esteio de nossa liberdade? e receita comum e imediata contra todos os males? E enquanto alguns a esperam trêmulos e apavorados, outros suportam-na mais facilmente que a vida”. E é exatamente isso que está acontecendo agora comigo. Estudar filosofia deu-me um conhecimento, um entendimento, sobre a morte que hoje me ajuda a ter compreensão desse momento tão difícil na minha vida.

Minha prima Giana escreveu a seguinte mensagem para mim e para meu irmão no Facebook: “No panteão da miserabilidade espiritual humana reina, no topo, os sem mãe, de sangue ou não. Os que a tiveram e não têm mais. Os que nunca a tiveram. Os que a tiveram mas não a consideraram e viveram a sua morte com quase indiferença. Todos os sem mãe. Vos abraço, meus primos. Embora um pouco mais miserável no mundo desde ontem, carrego as nossas mães agora em meu coração, trancadas a sete chaves e ninguém tasca.“. Ai penso eu: Que cara de sorte sou eu!! Que felicidade a minha que pude ter uma mãe que tanto fez por mim, uma tia (quase mãe) maravilhosa que tanto me ensinou e ajudou e uma avó (que queria ser minha mãe) que me deu todos os mimos do mundo. Como disse Schopenhauer “O amor é a compensação da morte.” e se ele está correto, eu tive um amor de mãe, de várias mães, que tornou a finitude uma doce lembrança dos momentos maravilhosos que dividi com elas nesse plano terrestre e espero dividir também no plano espiritual.

Fico aqui triste, mas conformado e resignado, pela certeza de que foi um até breve e não uma despedida definitiva. Fique com Deus, minha mãe. Seu filho te ama muito.

Beijos

Robson Freire

2 comentários sobre “Das Finitudes da Vida

  1. Amelia Sta Cruz disse:

    Um texto enriquecedor que abre a possibilidade do pensar sobre o perdão como qualidade da vida finita. Não estamos prontos! O construir de nós mesmos é por muitas vezes difícil quando percebemos que até nas células carregamos os
    registros daqueles que antecederam a nós.
    Aí que acho , pela minha opção de fé, que a Misericórdia de Deus nos dá a possibilidade de encontros que nos ajudam a separar, em nós , o joio do trigo. D. CARMEN, docinho , vovó de coração e mais outras delícias … alma, que muitos encontraram como auxilio de suas vidas finitas ( pó) a caminho da eternidade.

    • Robson Freire disse:

      Maria Amélia, eu que quero agradecer a você por todo carinho e amor que vocês deram a minha mãe. Meu conforto era saber que vocês estavam alí com ela o tempo todo cuidando e zelando por ela. Ver e sentir de perto todo amor de vocês por ela, me confortou o coração. Obrigado mais uma vez por tudo. Estejam onde estiverem, espero um dia poder retribuir todo esse amor e dedicação a vocês. Que Maria tenha levado ela no colo e a tenha confortado nessa hora.

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