Eu, professora, me confesso?


Maria Helena Ramalho| 2008-05-20

Ainda acalento o sonho de “ser professora de…”, de ser parte integrante e integrada de uma comunidade que quer construir algo de positivo e que sabe dizer não a farsas!

Eu, professora com 50 anos de idade e no 29.º ano de serviço, me confesso “transportada” repentinamente para um tempo e um contexto que não são os meus.

Um tempo, algures entre um passado, que felizmente já não vivi como docente (o de ditadura), e um futuro ainda muito confuso, em que tudo parece acontecer a um ritmo alucinante e com trajectórias pautadas pela irregularidade e imprevisibilidade.

Um contexto, em que as condições materiais e espaciais escolares são das menos favoráveis de toda a minha carreira (apesar do tão falado “choque tecnológico”), em que a estrutura educativa e escolar está de tal modo verticalizada e a cadeia de transmissão de informação tão extensa e difusa que os fenómenos de entropia marcam o quotidiano, abrindo caminho a uma opacidade nada favorável a ambientes construtivos e colaborativos.

Eu, professora por opção e vocação, confesso colocar em causa o meu papel na escola de hoje. Por temperamento e circunstâncias diversas, sempre tive uma postura discreta (excessivamente, segundo alguns), sempre me bastou o carácter sedutor e gratificante de cada aula, de cada encontro pedagógico com os meus alunos. Quando o mérito era reconhecido por pares e por superiores hierárquicos melhor, mas nunca foi (nem é) essa a preocupação da minha vida profissional. Hoje, as circunstâncias do encontro pedagógico estão tão condicionadas e são, por vezes, tão violentas, que dificilmente se consegue fruir o momento, se consegue encantar e ser encantado. Quanto ao reconhecimento do mérito por terceiros, o clima que se está a instalar na(s) escola(s) leva-me a recear que não só tenha menos probabilidade de acontecer como, pior ainda, possa a subserviência vir a ser considerada `mérito’.

Eu, professora, confesso saber ler, interpretar, detectar incongruências… pensar. Confesso saber (no sentido, também, de `estar convencida’) que o ensino-aprendizagem para qualquer ser humano (aluno, professor…) tem de ser faseado e tem de fazer sentido, sob pena de não ocorrer verdadeira aprendizagem. Assim, ninguém vive dignamente a sua profissão numa cadência desenfreada de alterações profundas, num sistema top-down e em cascata, com a agravante das incongruências se sucederem ao mesmo ritmo das orientações/determinações superiormente emanadas. Na melhor das hipóteses sobrevive-se à custa de manipulação de dados e de subversão de princípios.

Eu, professora, me confesso (ainda) disposta a lutar para que a escola se paute pela seriedade e dignidade, pelo binómio ensinar-aprender, num contexto de formar e crescer. Ainda acalento o sonho de “ser professora de…”, de ser parte integrante e integrada de uma comunidade que quer construir algo de positivo e que sabe dizer não a farsas!

Eu, professora, me questiono…
– Contribuí para este estado da situação? Espero que não.
– Fui conivente com ele? Talvez em parte, por omissão e desorientação nos primeiros meses do meu “reencontro” com a escola.
– Posso alterá-lo? Quero acreditar que sim, certa de que só o poderei fazer se não estiver isolada. Afinal, a escola somos nós (também) que a fazemos!

Fonte: http://www.educare.pt/educare/Actualidade.Noticia.aspx?contentid=4DAC20983055309EE04400144F16FAAE&opsel=1&channelid=0

Um comentário sobre “Eu, professora, me confesso?

  1. Professor Zeluiz disse:

    Olá, Robson!
    Faz algum tempo que não entrava nesse Caldeirão cheio de ideias. Achei este artigo um tanto cáustico. Sugiro uma contra-proposta que está em meu blog (http://professorzeluiz.blogspot.com/). "Outro olhar sobre a escola" é fruto de uma reflexão sobre as possibilidades da escola, ou da escola que ainda é possível. Passe por lá.

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